Ulisses narra a Virgílio e Dante sua odisseia rumo à morte

Da Divina Comédia de Dante Alighieri. Século XIV d.C.
Descendo rumo a Satanás no centro da Terra, os poetas itálicos chegam à oitava vala do Inferno. De uma ponte, Dante vê uma multidão de chamas esparsas. Virgílio explica que dentro delas penam os ardilosos. Uma se divide em duas línguas de fogo: são Diomedes e Ulisses, que pagam pelo estratagema do cavalo em Troia. Virgílio interpela o último para que narre a sua derradeira aventura, quando, atravessando com sua tripulação o hoje estreito de Gibraltar, lançou-se ao Atlântico, rumo ao hemisfério desconhecido. Na concepção medieval dantesca, ele seria feito só de água, com uma única ilha, no polo diametralmente oposto a Jerusalém, de onde uma imensa montanha se eleva ao céu, a montanha do Purgatório.
 Fala Ulisses:

 

                                  … “Quando

 

decidi que de Circe me afastasse,
que um ano me enleou lá por Gaeta,
antes que Eneias assim a nomeasse,

 

nem de filho ternura, nem afeta
pena do velho pai, nem justo amor
que alegraria Penélope dileta,

 

em mim puderam vencer o fervor
que me impelia a conhecer o mundo,
e dos homens os vícios e o valor;

 

e me atirei ao mar aberto e fundo,
com um só lenho e a pequena companha
que inda era o meu haver findo e jucundo.

 

De costa a costa fui até a Espanha,
até o Marrocos e a ilha dos sardos,
e outras que aquele mar à volta banha.

 

Éramos, eles e eu, velhos e tardos
ao chegarmos do angusto estreito à frente,
onde Hércules ergueu os seus reguardos

 

para que o homem mais além não tente.
Já os mares de Sevilha transcendidos,
como os de Ceuta, à esquerda mão jazente:

 

‘Ó, irmãos’, disse eu, ‘que por cem mil, vencidos,
perigos alcançastes o Ocidente;
a esta vigília dos nossos sentidos,

 

tão breve, que nos é remanescente,
não queirais recusar esta experiência
seguindo o Sol, de um mundo vão de gente.

 

Considerai a vossa procedência:
não fostes feitos para viver qual brutos,
mas para buscar virtude e sapiência.’

 

Meus companheiros fiz tão resolutos
Pra viagem, com tão curta oração,
que não seriam mais dela devolutos.

 

Voltada a popa pra a manhã, já são
asas os nossos remos, na ousadia
do voo, apontando pra sinistra mão.

 

Do outro polo as estrelas todas via
agora à noite, enquanto, rebaixado,
do chão do mar o nosso não surgia.

 

Cinco vezes reaceso e cancelado
fora o lume que a lua de baixo banha,
depois do fundo passo ultrapassado,

 

quando surgiu-nos diante uma montanha,
pela distância, escura, e alta tanto
que nunca eu conhecera outra tamanha.
Nossa alegria logo volveu-se em pranto,
que um remoinho dela levantou,
e feriu o lenho num fronteiro canto.

 

Três vezes, co’ a água toda, ele rodou;
na quarta, erguida a popa, foi arrojado,
proa abaixo, como a alguém agradou;

 

até que o mar foi sobre nós fechado”.