Preâmbulo às “Revoluções das Esferas Celestes”

Prefácio e Introdução às Revoluções das Esferas (ou Orbes) Celestes de Nicolaus Copernicus. Nuremberg, 1543 d.C.

 

Tradução de A.D. Gomes e G. Domingues.

Prefácio dedicado à Sua Santidade Paulo III Sumo Pontífice

Seguramente bem posso, Santíssimo Padre, ter a certeza de que certas pessoas, ao ouvirem dizer que eu atribuo determinados movimentos ao globo terrestre, nestes meus livros escritos acerca das revoluções das esferas do Universo, imediatamente hão-de gritar a necessidade de eu ser condenado juntamente com tal opinião. No entanto, a mim não me satisfazem as minhas ideias a ponto de deixar de ponderar o que os outros estiveram dispostos a julgar a respeito delas. E, embora eu saiba que as ideias de um filósofo não estão sujeitas ao julgamento do vulgo, uma vez que a preocupação daquele é inquirir da verdade em todas as circunstâncias até onde tal é permitido à razão humana por Deus, todavia penso que as opiniões totalmente erróneas devem ser evitadas. Por isso, ao pensar comigo mesmo como aqueles que afirmam ser confinada pelo julgamento de muitos séculos a opinião de que a Terra está imóvel no meio do Céu e aí está colocada servindo-lhe de centro, haviam de considerar uma cantilena absurda defender eu, pelo contrário, que é a Terra que se move; hesitei comigo durante muito tempo se havia de dar a lume os meus Comentários escritos para demonstração desse movimento, ou se seria preferível seguir o exemplo dos Pitagóricos e de alguns outros que procuravam confiar os mistérios da filosofia aos seus familiares, amigos e a ninguém mais, não por escrito mas de viva voz, tal como atesta a carta de Lísis a Hiparco. E quanto a mim, bem me parece que o fizeram não por qualquer espécie de má vontade em comunicar os seus ensinamentos, como alguns julgam, mas para que assuntos tão belos e investigados pelo estudo aturado de grandes homens não fossem desprezados por aqueles que, ou detestam gastar o seu belo tempo em outras letras que não sejam as lucrativas ou, mesmo quando sejam estimulados, pelas exortações e pelo exemplo de outros, para o estudo liberal da filosofia, contudo, por causa da tacanhez da sua inteligência, vivem entre os filósofos como zângãos entre abelhas.

Ao ponderar, pois, estas razões comigo mesmo, o desprezo que eu deveria recear por causa da novidade e do absurdo da minha opinião tinha-me levado quase a interromper por completo o trabalho começado.

Mas os amigos me arrancaram à indecisão e mesmo à relutância em que eu andava, há longo tempo, entre os quais esteve Nicolau de Schõnberg, cardeal de Cápua, célebre em todo o tipo de conhecimentos, e um homem a ele semelhante, o meu muito querido amigo Tideman Gísio, bispo de Cúlmen, por ser profundamente interessado pelas ciências sagradas e por todas as belas letras. Foi ele na verdade que frequentemente me exortava e, de mistura por vezes com censuras, me instava a que deixasse publicar e dar finalmente a lume esta minha obra que estava escondida, retida em minha casa, não apenas há nove anos, mas há quatro vezes nove. O mesmo fizeram junto de mim, numerosíssimos outros homens muito eminentes e muito cultos, exortando-me a que, por um preconceito de medo, não recusasse por mais tempo confiar a minha obra à comum utilidade dos estudiosos da Matemática. Segundo eles, havia de suceder que, quanto mais absurda parecesse agora à maioria esta minha teoria acerca do movimento da Terra, tanto Maior admiração e estima ela haveria de concitar, depois de verem, através da edição dos meus Comentários: dissipada a obscuridade do seu absurdo por meio das mais transparentes demonstrações.

Levado, pois, por estes persuasores e por esta esperança, permiti finalmente aos amigos que fizessem a edição da obra que eles me solicitavam há muito. Contudo não será, porventura, tão grande a admiração de Vossa Santidade pelo facto de eu ter ousado trazer a lume estas minhas lucubrações e de, após  tanto trabalho na sua elaboração, me ter decidido a deixar de hesitar em confiar as minhas cogitações acerca do movimento da Terra, também, à letra de imprensa; mas o que mais se espera de mim é ouvir dizer como me veio ao pensamento a audácia de, contra a opinião aceite dos matemáticos e, em certa medida, contra o senso comum, imaginar algum movimento da Terra. Por tal razão não quero que Vossa Santidade ignore que nenhum outro motivo me levou a pensar num método diferente de calcular os movimentos das esferas do Universo senão o facto de ter verificado que os matemáticos não estão de acordo consigo próprios na investigação de tais movimentos. É  que em primeiro lugar eles se encontram de tal  maneira inseguros quanto ao movimento do Sol e da Lua que nem a duração regular do ano corrente são capazes de explicar e formular.

Em segundo lugar, ao determinarem os movimentos das esferas do Universo e dos cinco planetas não usam até dos mesmos princípios e premissas que nas demonstrações dos movimentos e revoluções aparentes. Com efeito, uns apenas se servem de círculos concêntricos e outros de círculos excêntricos e de epiciclos com os quais, porém, não atingem completamente o que pretendem. É  que aqueles que se baseiam nos círculos concêntricos, embora tenham demonstrado que a partir deles se podem estabelecer alguns variados movimentos, não puderam, apesar disso, tirar daí nenhuma certeza que desse segura resposta aos fenómenos. Quanto àqueles que imaginaram os círculos excêntricos, embora pareçam ter dado, em grande parte, solução aos movimentos aparentes com cálculos apropriados, admitiram, no entanto, por vezes, muitos daqueles que parecem opor-se aos princípios fundamentais acerca da regularidade do movimento. Também não conseguiram descobrir ou concluir a partir desses círculos um facto de mais interesse ou seja a forma do Universo e a justa simetria das suas partes, mas aconteceu-lhes como a alguém que fosse buscar a diferentes pessoas mãos, pés, cabeça e outros membros, perfeitamente apresentados sem dúvida mas sem formarem um corpo uno, e sem qualquer espécie de correspondência mútua entre si, de tal maneira que resultaria deles mais um monstro do que um homem. E assim, no processo de demonstração a que chamam método, verifica-se que deixaram de fora algumas das condições necessárias ou incluíram nele alguma coisa estranha e que nada tinha a ver com a matéria. E isto não lhes teria de certeza acontecido se tivessem seguido princípios rigorosos. É que se as suas hipóteses admitidas não fossem falsas, tudo o que delas se conclui verificar-se-ia sem margem de dúvida. É possível que seja confuso o que estou a dizer agora, mas tornar-se-á mais claro em seu devido lugar.

Andando eu, pois, há muito tempo a meditar comigo nesta incerteza dos ensinamentos tradicionais das matemáticas acerca da dedução dos movimentos das esferas do Universo, começou a desgostar-me o facto de os filósofos não terem conhecimento firme de nenhuma explicação da máquina do Mundo que por nossa causa fora construída pelo mais qualificado e modelar artista de todos, eles que, aliás, fazem afinal profundas investigações a respeito das mais minuciosas coisas deste Universo.

Por isso dei-me  à tarefa de ler os livros de todos os filósofos que pudesse adquirir, disposto a indagar se nunca nenhum teria opinado a existência de outros movimentos das esferas do mundo, diferentes dos que lhes apresentavam quantos ensinavam Matemática nas escolas. E de facto descobri, primeiro em Cícero, que Nicetas reconhecera que a Terra se move. Depois também em Plutarco verifiquei que tinha havido outros da mesma opinião. Para que as suas palavras sejam acessíveis a todos pareceu-me bem transcrevê-las aqui:

«Outros pensam que a Terra está fixa. Mas o pitagórico Filolau diz que ela gira em órbita à volta do fogo, num círculo oblíquo  à semelhança do Sol e da Lua. Heraclides do Ponto e o pitagórico Ecfanto atribuem movimento  à Terra, não de maneira a sair da sua posição mas girando como uma roda do Ocidente para Oriente,  à volta do seu centro».

Assim, aproveitei, desde logo a oportunidade e comecei também eu a especular acerca da mobilidade da Terra. E embora a ideia parecesse absurda, contudo, porque eu sabia que a outros antes de mim fora concedida a liberdade de imaginar os círculos que quisessem para explicar os fenómenos celestes, pensei que também me fosse facilmente permitido experimentar se, uma vez admitido algum movimento da Terra, poderia encontrar demonstrações mais seguras do que as deles para as revoluções das esferas celestes.

E deste modo, admitindo os movimentos que eu à Terra atribuo na obra infra, com perguntas e longas observações, descobri que, se estabelecermos relação entre a rotação da terra e os movimentos dos restantes astros, e os calcularmos em conformidade com a revolução de cada um deles, não só se hão-de deduzir daí os seus fenómenos mas até se hão-de interligar as ordens e grandezas de todas as esferas e astros assim como o próprio céu, de modo que, em parte nenhuma, nada de si se possa deslocar sem a confusão das restantes partes e de toda a universalidade.

Assim também em todo o desenvolvimento da obra segui esta ordem: descrevo no primeiro livro todas as posições das esferas juntamente com os movimentos da Terra – os que eu lhe atribuo – de maneira que este livro contenha como que a constituição geral do Universo. E nos restantes livros a seguir,  comparo os movimentos dos demais planetas e de todas as esferas com o movimento da Terra, para que daí se possa concluir até que ponto será possível conservar os movimentos e comportamentos aparentes dos restantes planetas e esferas, se os confrontarmos com os movimentos da Terra. E não duvido que os talentosos e sábios matemáticos hão-de solidarizar-se comigo se, pois que esta disciplina acima de tudo o exige, quiserem conhecer e ponderar, não superficialmente mas em profundidade, o que por mim vem exposto nesta obra, para demonstração destas matérias.

E para que tanto sábios como não-sábios vissem que eu não fujo de modo nenhum ao julgamento de ninguém, resolvi dedicar a Vossa Santidade, de preferência a qualquer outrem, as minhas lucubrações, visto que Vós, até neste remotíssimo canto da Terra onde vivo, sois considerado o mais eminente não apenas na dignidade da Ordem mas na dedicação a todas as letras e também à  Matemática, a fim de que com a Vossa autoridade e o Vosso julgamento possais facilmente reprimir as mordeduras dos caluniadores, embora o provérbio diga que não há remédio para as mordeduras dos impostores. E se, por acaso, houver vozes loucas que apesar de ignorarem totalmente as Matemáticas se permitam, mesmo assim, um julgamento acerca destas lucubrações e ousem censurar, atacando o meu trabalho a pretexto de algum passo da Escritura, malevolamente distorcido em vista ao meu propósito, eu não lhes dou importância nenhuma, a ponto de desprezar até o seu juízo como temerário. De facto, não é desconhecido que Lactâncio, célebre escritor, aliás, mas fraco matemático, fala da forma da Terra de uma maneira perfeitamente infantil quando zomba dos que proclamam que a Terra tem a forma de um globo. Portanto, não deve parecer estranho aos estudiosos se alguns que tais zombarem de nós também. As Matemáticas escrevem-se para os matemáticos, aos quais também esta minha obra, se não me engana a mim  a ideia, há-de parecer algo útil até a República eclesiástica, cujo principado Vossa Santidade tem agora em Seu poder.

Com efeito, ainda não há muito tempo, sob o pontificado de Leão X, quando se discutia no Concílio de Latrão a reforma do Calendário eclesiástico, ela continuou tão indecisa unicamente pelo facto de se considerar que a duração dos anos e dos meses, bem como os movimentos do Sol e da Lua, ainda não estavam convenientemente medidos. Foi justamente a partir desta altura que voltei a minha atenção com mais diligência para a investigação destas realidades, aconselhado por um homem ilustríssimo, D. Paulo, bispo de Fossombrone, que então dirigia aquele processo. Aquilo, porém, que eu defender nesta matéria confio-o sobretudo ao julgamento de Vossa Santidade e ao de todos os outros sábios matemáticos. E para não parecer que, no referente à virtude da obra, eu estou a prometer a Vossa Santidade mais do que poderei cumprir, passo agora ao seu projecto.

 

Introdução

 

Dentre as mais variadas atividades literárias e artísticas, que revigoram as mentes humanas, a de maior dedicação e extremo fervor seria, penso eu, promover os estudos referentes aos mais belos objetos, mais desejáveis de serem conhecidos. Esta é a natureza da disciplina que trata das revoluções diurnas do Universo, movimento dos astros, dimensões, distâncias, nascimentos e ocasos, assim como das causas de outros fenómenos no céu, disciplina que, resumindo, explica totalmente esses acontecimentos. O que é na verdade mais belo que o céu, que, certamente, contém todos os atributos da beleza? Isto é proclamado pelos seus verdadeiros nomes, caelum  e mundus,  este último significando clareza e ornamento, como a escultura antiga. Por causa da perfeição transcendente do céu muitos filósofos têm-lhe chamado um deus visível. Portanto, se o valor das artes é julgado pelo assunto de que elas tratam, esta arte será de longe a mais notável, a chamada astronomia para alguns, astrologia para outros, mas para muitos dos autores clássicos, a consumação da matemática. Indiscutivelmente o vértice das artes liberais e mais digno de um homem livre é apoiado por quase todos os ramos da matemática: aritmética, geometria, óptica, estudo da agrimensura, mecânica e quaisquer outras têm contribuído para isso.

Apesar de todas as belas-artes servirem para manter a mente do homem afastada dos vícios e guiá-la através de coisas melhores, tal função pode ser mais integralmente realizada por esta arte, que fornece também um extraordinário prazer intelectual. Pois quando um homem está ocupado com coisas que ele vê estabelecidas na ordem mais bela e orientadas por uma vontade divina, não será a ininterrupta contemplação e uma certa familiaridade com elas que o estimulará para o melhor e para a admiração do Autor de tudo, no qual estão toda a felicidade e todas as coisas boas? Porque o piedoso Salmista [92:4] não queria declarar em vão que ficou satisfeito através do trabalho do Senhor e exulta com as obras feitas pelas Suas mãos, não seriamos nós atraídos para a contemplação das coisas mais belas por este meio, como se fosse um carro triunfal?

O grande benefício e enfeite que esta arte confere ao bem público (para não mencionar as inúmeras vantagens para os indivíduos), são muito mais excelentemente observados por Platão. Em Leis, VII ele pensa que [a matemática] deverá ser cultivada em primeiro lugar, porque pela divisão do tempo em grupos de dias, como os meses e os anos, é possível manter um estado vigilante e atento aos festivais e aos sacrifícios. Negar a sua necessidade para o professor de qualquer ramo do ensino superior é pensamento tolo, segundo Platão. Em sua opinião é altamente desagradável que alguém, possuindo os conhecimentos suficientes sobre o Sol, a Lua, e outros corpos celestes, possa vir a ser conhecido e chamado de divino.

Todavia, esta ciência, muito mais divina do que humana, que investiga os mais complicados temas, não está livre de dificuldades. A principal razão disso reside em que os seus princípios e suposições, chamadas «hipóteses» pelos Gregos, foram um ponto de partida para desacordo, como nós vemos, entre muitos daqueles que decidiram ocupar-se deste tema; e por isso eles não confiavam nas mesmas ideias. Outra razão adicional consiste em que os movimentos dos planetas e a revolução das estrelas não podem ser medidos com precisão numérica e informação completa, exceto com o decorrer do tempo e a contribuição de muitas observações anteriores, através das quais esse conhecimento foi transmitido para a posteridade, de mão em mão, por assim dizer. Para mais certeza, Cláudio Ptolomeu de Alexandria, que de longe sobressaiu dos restantes, pela sua maravilhosa competência e aplicação ao trabalho, trouxe, esta arte no seu todo quase até a perfeição, com o auxílio de observações prolongadas ao longo de um período de mais de quatrocentos anos; portanto, não parece haver qualquer brecha que ele não tenha fechado. Não obstante muitas coisas, como nós as entendemos, não concordam com as conclusões que resultam do seu sistema, além de certos outros movimentos terem sido descobertos, os quais ainda não eram dele conhecidos. Do mesmo modo Plutarco, numa discussão sobre o ano tropical do Sol, diz que a deslocação dos corpos celestes tem fugido muito à pericia dos astrónomos. Para utilizar o próprio ano como um exemplo, é bem conhecido, penso eu, quão diferentes têm sido sempre as opiniões relativas ao problema, e assim muitos abandonaram toda a esperança de que uma exata determinação do ano pudesse ser encontrada. A situação é a mesma a respeito de outros corpos celestes.

Contudo, para evitar dar a impressão de que esta dificuldade é uma desculpa para a indolência, pela graça de Deus, sem O qual nada podemos aperfeiçoar, vou tentar fazer um estudo mais largo sobre estas matérias. Pelo número de ajudas com que contamos, o nosso objetivo desenvolve-se no intervalo de tempo que se prolonga desde as origens desta arte até nós. As suas descobertas podem ser comparadas com o que eu tenho encontrado recentemente. Admito, além do mais, que vou tratar vários tópicos diferentemente dos meus antecessores, e quero ainda agradecer-lhes, porque foram eles que primeiramente abriram o caminho para a investigação destas variadas questões.

 

 

Edição: As Revoluções dos Orbes Celestes (Fundação Calouste Gulbenkian, 1996)
Ilustração: Relógio Steelhip (2015) 
Original: De Revolutionibus Orbium Coelestium