Oração à Dignidade do Homem

Introdução às Conclusões filosóficas, cabalísticas e teológicas em 900 teses compostas por Giovanni Pico della Mirandola, aos seus 26 anos, para serem debatidas publicamente com intelectuais de toda Europa ante a Cúria romana. Florença, 1486 d.C.

 

Eu li, ó veneráveis Pais, nas fontes árabes, que Abdala o sarraceno, interrogado sobre o que, nesta espécie de teatro que é o mundo, despertava a máxima admiração, respondeu que não via nada mais maravilhoso do que o homem. E com as suas palavras concordam as de Hermes Trismesgisto: “Grande milagre, ó Asclépio, é o homem!”

De minha parte, quando indagava o sentido de tais ideias, não me satisfaziam as diversas coisas que muitos afirmam sobre a excelência da natureza humana: que o homem é o vínculo de comunicação entre todas as criaturas, familiar às superiores e soberano sobre as inferiores; que pela perspicácia dos seus sentidos, pela investigação da sua razão e pela lucidez de sua inteligência ele é o intérprete da natureza; que é o intermediário entre a realidade eterna e o fluxo do tempo, e, como dizem os persas, a união, ou antes, o hino matrimonial do mundo, pouco inferior, segundo o testemunho de Davi, aos anjos.

Grandes coisas estas, mas não as mais importantes, não a ponto de se arrogarem a bom direito o privilégio da nossa máxima admiração. De fato, por que não admirar ainda mais os anjos e os beatíssimos coros do céu?

Mas finalmente creio ter compreendido porque o homem é de todos os seres vivos o mais abençoado e portanto o mais digno de admiração, e também qual é a condição que por sorte lhe toca na ordem universal, invejável não somente para os animais, mas também para os astros e os espíritos ultramundanos. Coisa incrível e maravilhosa! E como seria diferente?, se é precisamente por causa dela que o homem é estimado e proclamado um grande milagre e um ser extraordinário! Mas que coisa é esta? Escutai, ó Pais, com ouvidos benignos, e, por vossa humanidade, sede indulgentes para com esta minha exposição.

O Pai supremo, Deus arquiteto, já havia plasmado esta morada do mundo tal como a vemos, templo augustíssimo da divindade, segundo as leis de sua arcana sabedoria. Decorara as regiões supra-celestes com as inteligências espirituais; povoara as esferas etéreas com as almas eternas; preenchera as partes torpes e abjetas do mundo com uma multidão de animais de toda espécie. Mas, consumado o trabalho, o artífice quis que houvesse alguém capaz de apreciar o significado de tamanha obra, que soubesse amar sua beleza e admirar sua imensidão. Por isto, terminadas todas as coisas, como atestam Moisés e Timeu, ele pensou finalmente em criar o homem.

Entre os arquétipos, contudo, não havia mais nenhum com que pudesse modelar a nova progenitura, não havia em seus tesouros nada que pudesse adicionar à herança do novo filho, nem havia dentre as moradas do mundo nenhuma na qual pudesse habitar aquele que haveria de contemplar o universo. Tudo estava completo; todas as coisas distribuídas entre as ordens superiores, as intermediárias, e as ínfimas. Mas seria indigno da potência paterna fracassar em sua derradeira criação, como se fosse incapaz de gerar; indigno de sua sabedoria vacilar por falta de conselho em algo tão necessário; indigno do seu amor benevolente que aquele ser destinado a louvar a divina generosidade em todas as coisas fosse, ao olhar para si mesmo, obrigado a condená-la.

Finalmente, o supremo artífice estabeleceu que aquele a quem não pudera dar nada de propriamente seu, haveria de ter em comum tudo o que pertencesse a cada um dos outros seres. Assim ele tomou o homem, criatura de imagem indefinida, e, posicionando-o no centro do mundo, disse:

“Não te demos, ó Adão, uma morada fixa, nem feições próprias, nem dons particulares, a fim de que seja lá qual for a morada, a feição ou o dom pelos quais vieres a optar, tu, através de teus próprios juízos e decisões, os conquistes e possuas. A natureza dos outros seres, uma vez definida, é constrangida entre os limites prescritos pela nossa lei. Tu porém não és constrangido por nenhum limite, a fim de que através de teu livre arbítrio, nas mãos do qual te pus, tu mesmo o definas. Coloquei-te no centro do mundo, para que possas observar mais facilmente tudo o que existe no universo. Nem celeste nem terreno, nem mortal nem imortal te criamos, a fim de que possas, como um livre e extraordinário escultor de ti mesmo, plasmar a tua própria forma tal como a preferires. Poderás degenerar-te nas formas inferiores, que são animalescas; poderás, segundo a tua decisão, regenerar-te nas formas superiores, que são divinas”.

Ó suprema liberalidade de Deus Pai, suprema e admirável felicidade do homem! A ele foi dado ter o que desejar, ser o que bem entender. Os animais, logo que nascem, diz Lucílio, trazem consigo do útero de sua mãe tudo aquilo que possuirão. Os espíritos superiores se tornaram, desde o princípio ou logo depois, aquilo que serão nas eternidades perpétuas. Mas ao nascer o homem, o Pai lhe infundiu todos os tipos de sementes e germes de todas as espécies vivas. E elas hão de crescer naquele que as tiver cultivado e nele darão seus frutos. Se forem vegetais, tornar-se-á uma planta; se sensuais, se animalizará; se racionais, se transformará num animal celeste; se intelectuais, será um anjo e filho de Deus. E se, não contente com o destino de nenhuma criatura, ele se recolher no centro da sua unidade, poderá se tornar um só espírito com Deus, na escuridão solitária do Pai que está além de tudo, transcendendo assim a todas as criaturas.

Quem não se admirará com este nosso camaleão? Ou melhor, quem haverá de se admirar mais com qualquer outra coisa? Não sem razão o Asclépio o ateniense disse nos rituais secretos que o homem é simbolizado por Proteu, por causa de sua natureza mutante e metamórfica. Daí as metamorfoses tão celebradas entre os hebreus e os pitagóricos. De fato, a mais secreta teologia dos hebreus ora transforma o santo Enoc em anjo da divindade, que chamam Metatron, ora em outros espíritos numinosos. E para os pitagóricos os homens celerados são deformados em bestas e, a se crer em Empédocles, também em plantas. Imitando-os, Maomé repetia frequentemente e com razão que quem se afasta da lei divina se torna um animal. E estava certo, pois não é a casca que faz da árvore o que ela é, mas sim a sua natureza entorpecida, incapaz de sentir; não é o couro que faz o jumento, mas sua alma bruta e sensual; não é corpo circular que faz o céu, mas a reta razão; não é a separação do corpo que faz o anjo, mas a inteligência espiritual.

Se virdes algum servo do seu próprio ventre, rastejando pela terra, não é um homem que vedes, mas uma planta; se virdes alguém que vive em vãs fantasias da imaginação, como que cegado por Calipso, e que, sucumbindo às seduções deste encanto, é escravizado por seus sentidos, é uma besta que vedes, não um homem. Se virdes um filósofo que discerne todas as coisas com a reta razão, venerai-o; é um animal celeste, não terreno. Se virdes um puro contemplativo, indiferente ao corpo, imerso nas profundidades de sua mente, então não é um animal terreno nem celeste que vedes, mas sim um espírito superior revestido de carne humana.

Quem então não se admirará com o homem? Ele que, não sem motivo, é nomeado nas sagradas escrituras mosaicas e cristãs ora com o nome de todos os seres de carne, ora com o de todas as criaturas, uma vez que ele mesmo plasma, modela e transforma seu próprio aspecto naquele de todos os seres de carne, e sua própria mente naquela de toda criatura. Por este motivo o persa Evante, ao explicar a teologia caldeia, escreve que o homem não possui nenhuma imagem inata, mas muitas exteriores e adventícias. Daí o dito dos caldeus de que o homem é um animal de natureza variada, multiforme e inconstante.

Mas a que serve tudo isso? Serve para que compreendamos que, uma vez nascidos com a potencialidade de sermos o que quisermos, devemos tomar o máximo cuidado, a fim de que depois não digam que, tendo recebido a honra, não nos apercebemos e nos reduzimos a nós mesmos a bestas e estúpidos jumentos. Antes, lembremo-nos daquele dito do profeta Asaf: “sois deuses e filhos do Altíssimo”, e não abusemos da indulgentíssima liberalidade do Pai, tornando deletéria a salutar liberdade de escolha que ele nos deu.

Que uma santa ambição invada a nossa alma, de modo que, não contentes com as realidades medíocres, desejemos somente as superiores, e nos empenhemos com toda força para conquistá-las – pois podemos, se quisermos. Desdenhemos as coisas da terra, ignoremos as do céu e, recusando tudo o que é deste mundo, voemos rumo à corte ultramundana junto à divindade eminentíssima. Lá, como nos revelam os mistérios sagrados, os Serafins, os Querubins e os Tronos ocupam os primeiros lugares; e, relutantes em nos inclinarmos e incapazes de suportar o segundo lugar, emulemos a sua dignidade e glória. Não seremos inferiores a eles, se assim o quisermos.