Olímpia – Quando atletas e deuses buscam um corpo glorioso

Cinco mensagens do Barão Pierre de Coubertin, fundador dos Jogos Olímpicos modernos, sobre o espírito esportivo e o olimpismo.
I. A restituição das Olimpíadas

Discurso ao Primeiro Congresso Olímpico, realizado na Universidade Sorbonne, a dois anos da realização da primeira Olimpíada em Atenas. Paris, 1894.  

Senhores…

Neste ano de 1894, nos foi dado reunir nesta grande cidade de Paris – da qual o mundo partilha todos os regozijos como todas as inquietudes, de maneira que se pode dizer que ela foi o seu centro nervoso –, nos foi dado reunir os representantes do atletismo internacional e estes, unanimemente, sendo tão pouco controverso o princípio, votaram a restituição de uma ideia, velha de dois mil anos, que hoje como ontem agita o coração dos homens, ao qual ela satisfaz um dos instintos mais vitais e, já o disseram, os mais nobres. Estes mesmos delegados ouviram, no templo da ciência, ressoar em seus ouvidos uma velha melodia também de 2000 anos, reconstituída por uma douta arqueologia feita dos labores sucessivos de muitas gerações. E à noite, a eletricidade transmitiu por toda parte a novidade que o olimpismo helênico reentrou no mundo após um eclipse de muitos séculos.

A herança grega é de tal forma vasta, senhores, que todos aqueles que, no mundo moderno, conceberam o exercício físico sob um dos múltiplos aspectos puderam legitimamente reclamar para si a Grécia que os compreendia a todos. Uns viram o treinamento para a defesa da pátria, outros, a busca da beleza física e da saúde, pelo suave equilíbrio da alma e do corpo, outros enfim, aquela sã embriaguez do sangue que foi denominada a alegria de viver e que não é em nenhum lugar mais intensa e tão extraordinária quanto no exercício do corpo.

Em Olímpia, senhores, havia tudo isso, mas havia algo mais que ainda não ousaram formular, pois desde a idade média plana uma espécie de descrédito sobre as qualidades corporais, às quais foram isoladas das qualidades do espírito. Recentemente as primeiras foram admitidas a serviço das segundas, mas ainda as tratam como escravas, e a cada dia fazem com que elas sintam sua dependência e sua inferioridade.

Esse foi um erro imenso do qual é por assim dizer impossível calcular as consequências científicas e sociais. Definitivamente, não há, senhores, no homem duas partes, o corpo e a alma: há três, o corpo, o espírito e o caráter; o caráter não se forma pelo espírito: ele se forma sobretudo pelo corpo. Eis aquilo que os antigos sabiam e aquilo que nós retomamos penosamente. Aqueles da velha escola gemeram ao nos ver realizar nossas sessões em plena Sorbonne: eles se deram conta de que nós éramos revoltados e que acabaremos por demolir o edifício de sua filosofia verminosa. Isso é verdade, senhores, nós somos rebeldes e é por isso que a imprensa que sempre apoiou as revoluções benfeitoras nos compreendeu e ajudou, pelo que, en passant, de todo coração, eu a agradeço.

Eu me espanto e me desculpo, senhores, por ter mantido esta arfagem e por os ter arrastado a estas alturas: se eu continuasse, este alegre champanhe se evaporaria de tédio; eu me apresso portanto em lhe passar a palavra e ergo minha taça à ideia olímpica que atravessou, e torna a iluminar com um brilho de gozosa esperança, o limiar do século vinte.

 

II. Os guardiões da ideia olímpica

Extrato do discurso pronunciado durante a recepção oferecida pelo governo britânico em honra aos convidados da quarta edição dos Jogos Olímpicos. Londres, 1908 d.C.

Excelências, Mylords e Messieurs…

A ideia olímpica, é a nossos olhos a concepção de uma forte cultura muscular apoiada de uma parte pelo espírito cavalheiresco, aquilo que vocês [ingleses] chamam tão jovialmente de fair play e, de outra, sobre a noção estética, sobre o culto daquilo que é belo e gracioso. Eu não digo que os Antigos jamais faltaram a este ideal. Eu lia esta manhã a propósito de um incidente ocorrido ontem e que causou alguma comoção, eu lia em um dos seus grandes jornais uma expressão de desespero ante o pensamento de que certos traços dos nossos costumes esportivos atuais nos interditariam a aspiração ao nível clássico. Ora! senhores, vocês creem então que tais incidentes não esmaltaram a crônica dos Jogos Olímpicos, Píticos, Nemeus, de todas as grandes reuniões esportivas da antiguidade? Seria bem ingênuo acreditar nisso. O homem sempre foi apaixonado e o céu nos preserve de uma sociedade na qual não haja qualquer excesso e na qual a expressão dos sentimentos ardentes seja reclusa para sempre no cubículo demasiado estreito das conveniências.

É verdade contudo que em nossos dias, nos quais o progresso da civilização material – eu diria de bom grado civilização mecânica – magnificaram todas as coisas, certas máculas que ameaçam a ideia olímpica solicitam inquietação. Sim, eu não pretendo de modo algum esconder, o “fair play” está em perigo; e ele está sobretudo por causa deste cancro ao qual permitimos imprudentemente que se desenvolvesse: a loucura da jogatina, a loucura da aposta, do gambling. Ora, se cabe uma cruzada contra o gambling, nós estamos prontos a empreendê-la e estou certo de que neste país a opinião [pública] irá nos secundar – a opinião daqueles que amam o esporte por si mesmo, por seu alto valor educativo, pelo aperfeiçoamento humano do qual ele pode ser um dos fatores mais poderosos. No último domingo, durante a cerimônia organizada [na catedral de] Saint Paul em honra dos atletas, o bispo da Pensilvânia a relembrou nestes termos; o importante nestas Olimpíadas, é menos ganhar, do que participar.

Guardemos, senhores, esta forte palavra. Ela se estende através de todos os domínios até formar a base de uma filosofia serena e sã. O importante na vida, não é o triunfo mas o combate; o essencial, não é ter vencido mas ter lutado bem. Expandir estes preceitos, é preparar uma humanidade mais valorosa, mais forte – portanto mais escrupulosa e mais generosa.

(…)

Permitam-me, em nome de todos os meus colegas, saudar aqui suas respectivas pátrias e em primeiro lugar a velha Inglaterra, mãe de tantas virtudes, inspiradora de tantos esforços. O internacionalismo tal qual nós o entendemos é feito do respeito pelas pátrias e da nobre emulação com a qual estremece o coração do atleta quanto ele vê subir ao mastro da vitória, como resultado de seu labor, as cores de seu país.

Aos seus países, senhores, à glória de seus soberanos, à grandeza de seus reinos, à prosperidade de seus governos e de seus cidadãos.

 

III. O olimpismo é um estado de espírito

Publicado em La Gazette de Lausanne em 1918 sob o título “Cartas Olímpicas IV”.

O olimpismo é um estado de espírito surgido de um duplo culto: aquele do esforço e aquele da eurritmia. E vejam quão conforme à natureza humana se mostra a associação destes dois elementos – o gosto do excesso e o gosto da medida – que, de aspecto contraditório, se encontram não obstante na base de toda virilidade completa. Poderá ser um homem no sentido perfeito da palavra aquele que se inquieta incessantemente em poupar suas forças, limitar suas iniciativas e que não se apraz em despender além do que se espera dele? Mas ao mesmo tempo, será um homem no sentido perfeito da palavra aquele que não se apraz em ver a intensidade de seu impulso se adornar de uma calma sorridente e do domínio de si, se enquadrar em ordem, em equilíbrio e em harmonia?

Ora, nem a tendência ao esforço, nem o hábito da eurritmia não se desenvolvem em nós espontaneamente. É necessária uma aprendizagem e um treinamento. Não contem com o quadrado da hipotenusa, mesmo redobrado pelas fábulas de La Fontaine, para que isso aconteça. É pela prática que estas virtudes penetram em nossa natureza e nela se instalam. E eis precisamente a superioridade da atividade esportiva organizada, que impõe a um só tempo a quem se entrega a ela a medida e o excesso.

 

IV. O Esporte é Rei

Extrato do discurso de abertura à 19a Sessão do Comitê Olímpico Internacional em preparação à sétima edição da Olimpíada, na Antuérpia, a primeira após a Grande Guerra Mundial. Bélgica, 1920.

Podemos duvidar da realeza [do esporte] quando testemunhos numerosos e esfuziantes vêm a nós todos os dias; e principalmente este, que após uma tormenta de uma violência e de uma amplitude inacreditáveis o curso das Olimpíadas modernas foi imediatamente retomado com uma convicção da qual a Antiguidade não fornece nenhum exemplo tão impactante?

(…)

Ora, toda realeza convive com perigos e o futuro do esporte, por mais coroado que seja pelo favor dos povos e pelo entusiasmo da juventude, não está isento deles. Para nós que formamos de um certo modo a chancelaria universal, importa-nos garantir, tanto quanto concretizar, a perenidade de seu poder trabalhando para conferir a este poder mais e mais eficácia e prestígio. Quais são os elementos que constituem a verdadeira solidez de um trono? É neste país precisamente que convém perguntar. Pois a receita está à mão. Para a recolhê-la, basta lançar um olhar em torno de si.

Três elementos dão à soberania certeza sobre o dia seguinte: o trabalho progressivo conduzido com uma prudente audácia, o culto sem desfalecimento do ideal e do desinteresse, e enfim a adaptação quotidiana ao bem coletivo, ao serviço de todos. Munidos destes dons preciosos, nós podemos utilmente estabelecer o plano de uma sábia política esportiva.

Os progressos do esporte foram ininterruptos desde que ele retomou seu posto no domínio da pedagogia: progressos técnicos acima de tudo. Cuidemos somente para que o ponto de vista técnico não distorça o ponto de vista pedagógico. Este último exige sempre que as coisas se passem com uma certa discrição; ele comporta mal as fanfarras e fachadas. Não seria um progresso (bem longe disso!) se, confundindo a educação física preparatória com a pedagogia esportiva – plena de recursos ainda inexplorados –, fossemos versar nas organizações do Estado, mais uma burocracia, um mandarinato, promoções e inspetores permanentes. Não seria um ganho se, sob o pretexto da propaganda, a publicidade intensiva da imprensa trabalhasse para preparar para amanhã esta onda de desfavor que segue infalivelmente as pesagens sempre artificiais da moda sobre a opinião [pública]. Não seria um [ganho] se enfim um certo pedantismo científico invadisse este domínio e que, preocupados com a pesquisa do método modelo próprio ao treinamento dos músculos, os instrutores esportivos se tornassem os adeptos exclusivos de um jacobinismo fisiológico tão arrebatado pela disciplina e uniformidade quanto pode ser o jacobinismo político.

É necessário para o esporte a liberdade; é necessário o respeito às individualidades, a possibilidade para cada um de adaptar ao exercício as particularidades boas ou más de sua natureza, aquelas que lhe dão vantagem assim como aquelas que o prejudicam… O que será, nesse sentido, o progresso esportivo? Em qual via devemos nos engajar para o encontrar? É muito simples. Trabalhemos para facilitar a prática quotidiana dos esportes, para multiplicar as ocasiões favoráveis que solicitam o indivíduo a destruir as barreiras inúteis, a simplificar os regulamentos complicados. Coloquemos por toda parte a máquina esportiva à mão, persigamos seu aperfeiçoamento ao mesmo tempo que sua fabricação a baixo custo, busquemos aproximar ainda mais os diferentes esportes uns dos outros, a combiná-los, a exaltá-los pelo prazer de seus contrastes ou pela harmonia de suas similitudes. Eis o horizonte de atividade que deve nos solicitar e rumo ao qual nós podemos nos dirigir com toda confiança.

 

V. Ode ao Esporte

Poema medalhista de ouro na Competição de Arte Olímpica da quinta edição dos Jogos, em Estocolmo, submetido por Coubertin sob os pseudônimos de Georges Hohrod e M. Eschbach. Suécia, 1912.

I

Ó esporte, prazer dos Deuses, essência de vida, tu apareceste com frequência no meio da clareira cinzenta onde se agita o labor ingrato da existência moderna como o mensageiro radioso das épocas desfalecidas, daquelas épocas em que a humanidade sorria. E sobre o cume dos montes, um fulgor da aurora surgiu, e raios de luz mosquearam o chão de florestas sombrias.

II

Ó Esporte, tu és a Beleza! És tu, o arquiteto deste edifício que é o corpo humano e que pode se tornar abjeto ou sublime conforme é degradado pelas paixões vis ou sadiamente cultivado pelo esforço. Nenhuma beleza existe sem equilíbrio e sem proporção e tu és o mestre incomparável de ambos pois tu geras a harmonia, conferes ritmo aos movimentos, tornas a força graciosa e injetas a potência naquilo que é flexível.

II

Ó Esporte, tu és a Justiça! A equidade perfeita em vão perseguida pelos homens em outras instituições sociais e estabelecida por ela mesma em torno a ti. Ninguém conseguiria ganhar um centímetro sobre a altura que pode saltar nem um minuto à duração que pode correr. Somente suas forças físicas e morais combinadas determinam o limite de seu sucesso.

IV

Ó Esporte, tu és a Audácia! Todo o sentido do esforço muscular se resume em uma palavra: ousar. A que servem os músculos, a que serve se sentir ágil e forte e cultivar sua agilidade e sua força se não for para ousar? Mas a audácia que tu inspiras não tem nada com a temeridade que anima o aventureiro quando ele lança ao acaso todas as suas fichas. É uma audácia prudente e refletida.

V

Ó Esporte, tu és a Honra! Os títulos que tu conferes não têm nenhum valor se tiverem sido adquiridos de outra forma que não na absoluta lealdade e no desinteresse perfeito. Aquele que consegue por algum artifício inconfessável trapacear seus camaradas, sofre a vergonha no fundo de si mesmo e teme o epíteto infamante que será colado ao seu nome se descobrirem o embuste com o qual lucrou.

VI

Ó Esporte, tu és a Alegria! A teu chamado a carne festeja e os olhos sorriem; o sangue circula abundante e apressado entre as artérias. O horizonte dos pensamentos se torna mais claro e mais límpido. Tu podes mesmo aportar àqueles que foram abatidos pela amargura uma salutar diversão às suas penas enquanto aos felizes tu prometes saborear a plenitude da alegria de viver.

VII

Ó Esporte, tu és a Fecundidade! Tu tendes pelas vias diretas e nobres ao aperfeiçoamento da raça destruindo os germes mórbidos e endireitando as taras que a ameaçam em sua pureza necessária. E tu inspiras ao atleta o desejo de ver crescer em torno a si filhos alertas e robustos para lhe suceder na arena e trazer em seu turno gozosos louros.

VIII

Ó Esporte, tu és o Progresso! Para bem te servir, é preciso que o homem se melhore em seu corpo e em sua alma. Tu lhe impõe a observação de uma higiene superior; tu exiges que ele se guarde de todo excesso. Tu lhe ensinas as regras sábias que darão a seu esforço o máximo de intensidade sem comprometer o equilíbrio de sua saúde.

IX

Ó Esporte, tu es a Paz! Tu estabeleces relações felizes entre os povos reaproximando-os no culto da força controlada, organizada e senhora de si mesma. Por ti a juventude universal aprende a se respeitar e assim a diversidade das qualidades nacionais se torna a fonte de uma generosa e pacífica emulação.