Mozart e Salieri

Cena 1

Das Pequenas Tragédias de Alexander Púchkin. Moscou, 1830 d.C.

 

(Um aposento)

SALIERI
Algumas pessoas dizem: não há justiça sobre a terra.
Nem nos céus, tampouco! A mim isto
parece tão claro quanto uma escala qualquer.
Eu vim a este mundo já apaixonado pela arte.
Mesmo assim, num dia de minha infância, quando nas alturas
da nossa velha igreja os magnânimos órgãos soaram,
eu ouvi, e me perdi ouvindo – as lágrimas
se derramavam, involuntárias, doces!
Na juventude eu reneguei todos os passatempos ociosos;
todas as ciências estranhas à música
me desgostavam; com obstinado desdém
eu logo as rejeitei e entreguei-me
à música e só a ela. O primeiro passo foi duro,
e o caminho inicial foi aborrecido. Eu superei
as primeiras adversidades. Empreguei muito labor
para constituir o pedestal da arte.
Tornei-me um artesão: aos meus dedos
ensinei a destreza submissa, seca;
ao meus ouvidos, precisão. Tendo sufocado os sons,
eu dissequei a música como um cadáver. Eu medi
a harmonia pela aritmética. Só então,
bem versado na ciência, eu ousei me entregar
ao doce langor da fantasia criativa.
Eu comecei a compor, mas ainda em silêncio,
ainda secretamente, ainda sem sonhos de glória.
Com frequência, sentado na minha cela muda
por dois, três dias – esquecido de comida ou bebida,
saboreando o frêmito e as lágrimas de inspiração –
eu queimei minha obra, e frigidamente observei
como minhas ideias, os sons que gerei,
se incendiaram e desapareceram com a leve fumaça.
E que dizer disso? Quando a estrela encantada de Gluck
despontou e nos abriu a todos novos segredos
(que profundidade singela, que segredos encantadores!),
acaso não abandonei tudo que conhecera antes,
e amei tanto, e acreditei com tanto fervor,
que o segui, submisso e alegre,
como alguém que vagava errante e encontra
um homem capaz de orientá-lo a um rumo diferente?
Com uma constância árdua e sempre diligente,
finalmente na infinidade da arte
eu atingi um alto grau. Então a glória sorriu
sobre mim, finalmente; nos corações das pessoas
eu encontrei cordas consonantes às minhas criações.
Eu estava contente; em paz eu gozei
minha própria obra, triunfo e glória – e também
as obras e os triunfos de meus amigos,
meus queridos camaradas na maravilhosa arte.
Não, jamais conheci o ferrão da inveja!
Ah, nunca! – nem mesmo quando Piccini
sabia como encantar os ouvidos selvagens de Paris,
nem quando eu ouvi pela primeira vez “Iphigenia”…
Quem diria que o orgulhoso Salieri iria em vida
se tornar um invejoso repulsivo, uma serpente
emboscada pelo povo,
mastigando areia e pó em impotência?
Ninguém! E agora – eu direi –
eu sou um invejoso. Eu invejo; brutalmente,
profundamente, hoje eu invejo. – Dizei-me, ó Ceus!
Onde, onde está a justiça?, quando o dom sagrado,
o gênio imortal, vem não em recompensa
do amor ardente, da total auto-rejeição,
do trabalho e do empenho e das orações,
mas derrama a sua luz sobre a cabeça de um louco,
um vadio indolente… Ó Mozart, Mozart!
(Entra Mozart.)
MOZART
Aaah! Você me viu! Droga – eu queria te
fazer uma brincadeira de surpresa.
SALIERI
Você aqui! – desde quando?
MOZART
Acabei de chegar. Eu queria
te mostrar uma coisa; estava vindo,
quando passei por uma taberna, e de repente
ouvi um violino… Meu caro Salieri,
em toda a sua vida você jamais ouviu nada
tão engraçado: este violinista cego na taberna
estava tocando o “voi che sapete”. Extraordinário!
Eu não consegui resistir a trazê-lo
para te mostrar a sua arte.
Entre, maestro!
(Entra o velho cego com o violino.)
Um pouco de Mozart, vamos!
(O velho toca uma ária de Don Giovanni; Mozart se esbalda de tanto rir.)
SALIERI
E você consegue rir?
MOZART
Ah, vamos,
Salieri, você não acha engraçado?
SALIERI
Não, não acho!
Como posso rir quando um pintor de paredes borra-botas
mancha ante meus próprios olhos a grande Madonna de Rafael;
como posso rir quando um palhaço repulsivo
com paródias sem gosto desonra Dante.
Vá embora, velho!
MOZART
Espere um momento: aqui,
Tome isto e tome uma dose por mim.
(O velho sai.)
Você, meu bom Salieri,
parece que está naqueles dias. Bom, eu voltarei
outra hora.
SALIERI
O que você trouxe para mim?
MOZART
Isto?
Ah, não, é uma bobagem. Uma madrugada dessas
minha insônia me invadiu por inteiro
e trouxe umas duas ou três ideias à cabeça;
hoje eu juntei tudo… Bem, eu esperava
saber o que você acha disso, mas agora
você não está com disposição para mim.
SALIERI
Ah, Mozart, Mozart!
Qual foi a vez que não estive com disposição para você?
Sente-se; sou todo ouvidos.
MOZART
(no piano)
Imagine… bem, imagine quem?…
Imagine, vejamos, eu – um pouco mais jovem, porém;
apaixonado – não muito, de leve – divertindo-se
com uma menina bonita, ou com um amigo – digamos, com você;
Estou feliz… De repente – uma visão mortal,
Uma súbita melancolia, ou algo assim…
Bem, ouça.
(Ele toca.)
SALIERI
Você estava trazendo isso para mim
e foi capaz de parar e ouvir em alguma taberna
um violinista cego arranhando as cordas! – Oh, meu Deus!
Você, Mozart, não é digno de você mesmo.
MOZART
Bom, então ela é boa?
SALIERI
Que profundidade!
Que simetria e que audácia!
Você, Mozart, é um deus – e você não sabe.
Mas eu, eu sei.
MOZART
Puxa, é mesmo?, bom, pode ser…
Mas minha divindade está com fome.
SALIERI
Então ouça: que tal jantarmos juntos,
digamos, na taberna do Leão Dourado?
MOZART
Ótimo!
Adorei a ideia. Mas deixe-me dar uma passada em casa
e dizer à minha mulher que não me espere
para o jantar.
(Ele sai.)
SALIERI
Estou esperando; não me deixe na mão!
Não, eu não aguento mais, não posso
resistir ao meu destino: eu fui eleito
para pará-lo – se não, todos morreremos!
Todos nós sacerdotes e devotos da música,
não só eu, com a minha glória evanescente…
A que serve Mozart continuar vivendo
e galgando alturas ainda maiores?
Acaso ele elevará a arte? Não exatamente: a arte
despencará de novo assim que ele desaparecer.
Ele não nos legará um herdeiro.
Para que ele serve? Como uma espécie de querubim celestial,
ele veio para nos trazer um monte de melodias do céu,
para despertar em nós, criaturas do pó,
o desejo sem asas e depois voar para longe.
Então voe!! Quanto antes melhor.
Eis aqui o veneno – o último dom de Isora.
Por dezoito anos eu o carreguei comigo,
e a vida desde então me pareceu no mais das vezes
uma chaga insuportável; e muitas vezes eu me sentei
na mesma mesa com aquele adversário despreocupado,
e aos sussurros da tentação
jamais me inclinei – embora não seja covarde,
ainda que sentisse profundamente a ofensa,
ainda que meu amor à vida seja pequeno. Eu segui postergando,
enquanto a sede pela morte me excruciava.
Por que morrer?, eu murmurei: talvez a vida ainda traga
para mim algum dom repentino de seus tesouros;
talvez eu seja visitado por êxtases
e uma noite criativa de inspiração;
Talvez outro Haydn crie
Uma nova grandeza – e nela eu me deleitarei…
Enquanto eu estava ceando com um convidado detestável –
talvez, murmurei, eu encontre alguém pior,
um adversário mais venal; talvez, uma ofensa
pior se precipitará sobre mim das alturas desdenhosas –
então você não será perdido, dom de Isora.
E eu estava certo! E finalmente encontrei
meu maior adversário, e agora o outro Haydn
inebriou-me maravilhosamente com meu êxtase!
Chegou a hora! O dom profético do amor,
hoje se transfere à taça da amizade.