Minhas crianças

Três cenas infantis de Charles Dickens

 

A mais antiga lembrança de Pip

De Grandes Esperanças, 1861.

Tradução de Paulo Henriques Britto

Sendo o sobrenome de meu pai Pirrip, e meu nome de batismo Philip, quando menino minhas tentativas de pronunciar os dois nomes não resultavam em nada mais longo nem mais explícito do que Pip. Por isso passei a denominar-me Pip, e assim vim a ser chamado.

Digo que Pirrip era o sobrenome de meu pai com base na sua lápide e na minha irmã — a sra. Joe Gargery, que se casou com o ferreiro. Como jamais vi meu pai nem minha mãe, e nunca vi retrato deles (pois que viveram muito antes do tempo das fotografias), minhas primeiras fantasias a respeito de sua aparência se fundavam, de modo nada razoável, nas suas lápides. A forma das letras na lápide de meu pai me inspirou a estranha ideia de que ele teria sido um homem quadrado, robusto, moreno, com cabelos negros crespos. A partir do aspecto e fraseado da inscrição, “Também Georgiana Esposa do Acima”, extraí a conclusão infantil de que minha mãe era sardenta e doente. Cinco pequenos losangos de pedra, cada um com cerca de meio metro de comprimento, dispostos numa fileira ordenada ao lado da sepultura dos dois, e dedicados à memória de cinco irmãozinhos meus — que desistiram de tentar viver excepcionalmente cedo nesse conflito universal — me inspiraram a convicção, à qual me apegava com fervor religioso, de que todos eles haviam nascido de costas, com as mãos nos bolsos das calças, e de lá jamais as tiraram neste estado da existência.

Nossa região era o charco junto ao rio, a uma distância, onde o rio fazia curva, de trinta quilômetros do mar. Minhas primeiras impressões vívidas e abrangentes da identidade das coisas, creio eu que as vivenciei numa memorável tarde fria e úmida, já perto do anoitecer. Nessa ocasião descobri com certeza que aquele lugar lúgubre, coberto de urtigas, era o campo-santo; e que Philip Pirrip, paroquiano de lá, e também Georgiana, esposa do acima, estavam mortos e enterrados; e que Alexandre, Bartholomew, Abraham, Tobias e Roger, filhos pequenos dos dois, também estavam mortos e enterrados; e que o descampado escuro e plano que se estendia além do campo-santo, pontuado por diques e outeiros e porteiras, com algumas cabeças de gado esparsas a pastar, era o charco; e que a linha plana e cor de chumbo mais além era o rio; e que aquele pasto selvagem e longínquo de onde vinha o vento era o mar; e que o serzinho estremecendo de medo de tudo isso, e começando a chorar, era Pip.

“Para com esse barulho!”, gritou uma voz terrível, e um homem veio vindo por entre as sepulturas ao lado do alpendre da igreja. “Fica quieto, seu diabrete, senão eu te corto a garganta!”

Um homem assustador, com uma roupa grosseira toda cinzenta, com um grande ferro na perna. Um homem sem chapéu, e com sapatos rasgados, e com um trapo velho amarrado em torno da cabeça. Um homem que havia afundado na água, e chafurdado na lama, e torcido o pé nas pedras, e se cortado nas pederneiras, e se espetado nas urtigas, e se rasgado nas urzes; que mancava, e estremecia, e rosnava; e que me olhava com olhar feroz, estalejando os dentes enquanto me agarrava pelo queixo.

“Ah! Não me corte a garganta, senhor”, implorei apavorado. “Por favor, não faça isso, senhor.”

“Diz o teu nome!”, ordenou o homem. “Depressa!”

“Pip, senhor.”

“De novo”, disse o homem, olhando-me fixamente. “Fala!”

“Pip. Pip, senhor!”

“Mostra onde tu moras”, disse o homem. “Aponta pro lugar!”

Indiquei a direção de nossa aldeia, na margem plana do rio, em meio a amieiros e árvores podadas, a quase dois quilômetros da igreja.

O homem, tendo me olhado por um momento, virou-me de cabeça para baixo e esvaziou-me os bolsos. Neles não havia nada além de um pedaço de pão. Quando a igreja se endireitou — pois ele foi tão repentino e forte que a fez virar de ponta-cabeça diante de mim, e vi o campanário debaixo de meus pés —, quando a igreja se endireitou, como eu dizia, dei por mim sentado numa lápide alta, tremendo, enquanto ele devorava o pão com avidez.

“Filhote de cachorro”, disse o homem, lambendo os beiços, “tuas bochecha é bem gorducha.”

Creio que eram mesmo gordas, embora na época eu fosse um menino pequeno para minha idade, e nada forte.

“Ora se eu não comia elas”, disse o homem, sacudindo a cabeça de modo ameaçador, “e posso muito bem comer, mesmo!”

Manifestei enfaticamente a esperança de que ele não fizesse tal coisa, e agarrei-me com mais força à lápide em que ele me colocara; em parte para não cair dela, em parte para não chorar.

“Escuta aqui!”, disse o homem. “Que é da tua mãe?”

“Ali, senhor!”, apontei.

Ele assustou-se, correu um pouco, parou e olhou para trás.

“Ali, senhor!”, expliquei, tímido. “Também Georgiana. É a minha mãe.”

“Ah!”, ele exclamou, voltando. “E aquele ali ao lado da tua mãe é o teu pai?”

“Sim, senhor”, respondi, “paroquiano de cá.”

“Ah!”, ele murmurou então, pensativo. “Tu vives com quem — se é que eu vou ser bonzinho e te deixar viver, coisa que ainda não decidi?”

“Minha irmã, senhor — a senhora Joe Gargery — mulher de Joe Gargery, o ferreiro, senhor.”

“Ferreiro, é?”, disse ele. E olhou para a própria perna. Depois de olhar feroz para a perna e para mim algumas vezes, aproximou-se de minha lápide, segurou-me pelos dois braços e inclinou-me para trás até onde pôde fazê-lo, de modo que pudesse me olhar nos olhos do modo mais penetrante, enquanto os meus olhavam para os dele, impotentes.

“Escuta aqui”, disse ele, “o negócio é saber se te deixo viver ou não. Tu sabes o que é uma lima de ferro.”

“Sei, sim, senhor.”

“E sabes o que é comida.”

“Sei, sim, senhor.”

Depois de cada pergunta, ele me inclinava um pouco mais, de modo a acentuar minha sensação de impotência e perigo.

“Me traz uma lima.”

Inclinou-me outra vez.

“E me traz comida.”

Inclinou- me outra vez.

“Me traz as duas coisa.” Inclinou-me outra vez. “Senão eu te ranco o coração e o figo.” Inclinou-me outra vez.

Eu estava terrivelmente assustado, e tão tonto que me agarrei a ele com as duas mãos, dizendo: “Se o senhor por favor parar de me entortar, pode ser que eu não fique enjoado, e preste mais atenção no senhor”.

Ele me virou ao contrário com toda a força, de modo que a igreja pulou por cima de seu próprio cata-vento. Então me segurou pelos braços, de cabeça para cima, sobre a lápide, e continuou, ameaçador:

“Me traz amanhã, de manhã bem cedo, a lima e a comida. Leva tudo pra mim, na velha bateria acolá. Faz isso e não ouses dizer uma palavra a ninguém, nem dar a entender que encontraste uma pessoa como eu, nem pessoa nenhuma, que aí eu te deixo viver. Se não fizeres o que mando, ou se desviares do que eu te digo, por pouco que seja, teu coração e teu figo vai ser arrancado, assado e comido. Olha, eu não estou sozinho não, ao contrário do que podes estar pensando. Tem um rapaz escondido comigo, e em comparação com esse rapaz eu sou um anjo. Esse rapaz está ouvindo tudo que eu digo. Esse rapaz tem um jeito secreto que só ele sabe de pegar um garoto, e rancar o coração dele, e o figo dele. Não adianta tentar se esconder desse rapaz. O garoto pode trancar a porta, se enfiar na cama quentinha, se embrulhar todo nas coberta, puxar elas até cobrir a cabeça, crente que está muito confortável e bem protegido, mas aí esse rapaz entra sem fazer barulho, chega até ele e rasga ele ao meio. Eu estou no momento impedindo esse rapaz de fazer mal a ti, com muita dificuldade. É muito difícil impedir esse rapaz de te rasgar ao meio. E então, o que me dizes?”

Eu disse que ia lhe trazer a lima, e os restos de comida que conseguisse pegar, e viria a seu encontro na bateria de manhã cedinho.

“Diz que Deus te mate mortinho se não fizeres isso!”, disse o homem.

Obedeci, e ele me pôs no chão.

“Pois então”, insistiu, “lembra do que foi combinado, e lembra daquele rapaz, e vai pra casa!”

“Bo-boa noite, senhor”, gaguejei.

“Boa uma ova!”, exclamou, correndo a vista pela planície fria e úmida. “Eu queria ser um sapo. Ou então uma enguia!”

Enquanto abraçava o próprio corpo, que tremia, com os dois braços — apertando com força, como para não se desmanchar — seguia mancando até a mureta da igreja. Fiquei a vê-lo, contornando com cuidado as urtigas, por entre as sarças que cingiam os montículos verdes, e a meus olhos de criança ele dava a impressão de estar se esquivando das garras dos defuntos, que esticavam os braços cautelosos de suas sepulturas, para lhe agarrar o tornozelo e puxá-lo para dentro.

Chegando à mureta, passou por cima dela, como um homem cujas pernas estão dormentes e duras, e depois se virou para me procurar. Quando vi que ele se virava, voltei-me na direção de minha casa, e corri o mais depressa que pude correr. Mas pouco depois olhei para trás e vi que ele voltava para os lados do rio, ainda a abraçar-se com os dois braços, pondo com cuidado os pés feridos entre as pedras grandes postas aqui e ali no charco, para servirem de passadeiras quando chovia forte, ou quando subia a maré.

O charco era apenas uma longa linha horizontal negra quando parei para tentar encontrá-lo; e o rio não passava de mais uma linha horizontal, bem menos larga e menos negra; e o céu, só um feixe de linhas longas de um vermelho colérico, entremeadas com faixas negras e densas. Na margem do rio eu divisava, com dificuldade, os dois únicos vultos negros em toda a paisagem que pareciam estar em posição vertical; um deles era o farol que orientava os marinheiros — parecia um barril sem aros no alto de um poste — uma coisa feia quando vista de perto; o outro, um patíbulo onde pendiam umas correntes, no qual outrora fora enforcado um pirata. O homem seguia mancando em direção a esse patíbulo, como se fosse o pirata redivivo, que dele tendo descido agora voltava, para lá se pendurar outra vez. Esse pensamento fez-me muito mal; e, ao ver os bois levantando as cabeças e olhando para o homem, perguntei a mim mesmo se eles também teriam a mesma impressão. Corri a vista à minha volta, temendo deparar com o rapaz terrível, e não vi nenhum sinal dele. Porém, como estava com medo de novo, fui para casa correndo sem parar.

 

O dia em que Oliver conheceu sua família

De Oliver Twist ou O progresso do Garoto de Paróquia, 1837.

Tradução de Joaquim Maria Machado de Assis

Órfão de mãe, morta ao lhe dar à luz, e abandonado misteriosamente pelo pai, Oliver Twist vive num vilarejo de província sob as parcas condições garantidas pela Lei dos Pobres. Após nove anos sob a custódia de uma velha amargurada, com pouca comida e conforto, ele é levado pelo bedel da paróquia para morar e trabalhar numa fábrica de tecelagem. Certo dia os rapazes famintos tiram a sorte para ver quem deveria pedir uma segunda porção de papa de aveia. A tarefa recai sobre Oliver que, trêmulo, implora ao bedel: “Por favor, senhor, eu gostaria de mais.” Segue-se uma convulsão, os membros da Diretoria são convocados e decidem vender Oliver por 5 libras ao primeiro que o quiser como aprendiz e ele acaba com um empregado da paróquia. Embora as condições materiais sejam um pouco melhores, Oliver continua a ser maltratado pela esposa do empregado, e também pela criada e seu namorado, um valentão local. Esses dois, tramando contra Oliver, o envolvem numa briga. Ele é espancado pela dona da casa e trancado num quarto, de onde escapa durante a noite decidido a buscar a sorte em Londres. Sete dias depois, ele chega no alvorecer à cidadezinha de Barnet.  

 

As portas ainda estavam fechadas e as ruas desertas; o sol estava brilhante; com os pés em sangue e coberto de poeira, Oliver assentou-se nos degraus de uma casa.

Pouco a pouco foram-se abrindo as janelas e aparecendo gente que parava e olhava para Oliver, sem lhe darem nada.

Havia já algum tempo que ele ali estava; admirava-se de ver tantas tavernas, porque a metade das casas de Barnet são tavernas grandes e pequenas; olhava distraído para os carros que passavam e admirava-se de que fizessem em algumas horas um trajeto em que ele gastara um semana inteira.

Foi arrancado de suas reflexões por um rapaz que lhe passara pela frente pouco antes sem parecer vê-lo, e voltara e se colocara do outro lado da rua para o observar atentamente.

A princípio Oliver não lhe deu grande atenção; mas o rapaz ficou tanto tempo na mesma posição e lugar, que Oliver levantou a cabeça e olhou para ele.

Então o rapaz atravessando a rua e dirigindo-se para Oliver disse:

— Então que há, amiguinho?

O rapaz que lhe falava tinha quase a mesma idade que ele; era o indivíduo mais original que Oliver vira até então. Tinha o nariz arrebitado e torcido, a testa estreita, as feições comuns, e o exterior porquíssimo, o que não impedia que se mostrasse com ares de fidalgo. Era baixinho, tinha as pernas arqueadas e olhos sem vergonha; o chapéu estava posto na cabeça de modo que parecia prestes a cair; e efetivamente cairia se o pequeno não desse de quando em quando um movimento à cabeça para o repor na posição primitiva. Tinha uma casaca que lhe descia até aos calcanhares; trazia as mangas arregaçadas até os cotovelos, provavelmente com o fim de meter as mãos, como então fazia, na algibeira da calça de veludo. Calçava sapatos à Bucher.

— Então, que há, amiguinho? Perguntou aquele misterioso rapaz.

— Tenho fome e estou muito cansado, respondeu Oliver com lágrimas nos olhos. Ando há sete dias.

—Sete dias! Disse o outro; Ah! Compreendo. Por ordem do bico?

Oliver parecia admirado.

— Ignora acaso o que é o bico?

Oliver respondeu com singeleza que sempre cuidou que bico era boca de pássaro.

— Que inocência! Exclamou o rapaz; um bico é uma autoridade policial; andar por ordem do bico é nunca andar direito, é andar às furtadelas. Esteve no moinho?

— Que moinho? Disse Oliver.

— Que moinho! O moinho que anda sem água [como fazem na prisão]. Anda comigo; tu precisas comer; a bolsa não está muito recheada, mas enquanto houver… Anda, anda!

O rapaz ajudou Oliver a levantar-se, levou-o para a loja de um sujeito que vendia velas, comprou aí um pouco de presunto e um pão de duas libras; meteu o presunto dentro do pão e foi com Oliver para uma sala que ficava no fundo de uma taverna.

Ali o misterioso rapaz mandou vir cerveja; a convite do seu novo amigo, Oliver atirou-se ao banquete e comeu com unhas e dentes, enquanto o companheiro o contemplava.

— Você vai a Londres? Disse o rapaz quando Oliver acabou.

— Vou.

— Tem casa lá?

— Não.

O indivíduo entrou a assobiar e meteu as mãos na algibeira.

— Mora em Londres?

— Sim, quando estou em casa, respondeu o rapaz. Precisa de casa para passar a noite?

— Sim, desde que saí de minha terra ainda não dormi em nenhuma casa.

— Não te incomodes, disse o misterioso rapaz, eu devo estar esta noite em Londres, e conheço lá um velho respeitável que te dará casa de graça, com a condição que sejas apresentado por um dos seus amigos. Eu sou amigo dele.

Dizendo isto, esvaziou o copo.

A inesperada oferta de uma casa não era para desprezar, principalmente depois que o rapaz afiançou que o tal velho arranjaria um bom emprego para Oliver.

Daqui nasceu uma conversa mais íntima e confidencial, em que Oliver soube que o seu amigo se chamava Jack Dawkins e era amigo e protegido pelo referido sujeito velho.

O exterior do Sr. Dawkins não falava muito em favor das vantagens que lhe dava o crédito do seu protetor, mas como a sua conversa era leviana e incoerente, e como ele confessava que os seus amigos o conheciam pela alcunha de Matreiro, Oliver concluiu que o seu companheiro era naturalmente gastador e estouvado, pelo que os preceitos morais do seu benfeitor não lhe faziam efeito. Com este pensamento, resolveu captar o mais depressa possível a estima do velho e desistir da amizade do Matreiro, se este, como parecia, não se corrigisse.

Jack Dawkins não quis entrar em Londres antes da noite, e era perto de onze horas quando chegaram à barreira de Islington. Tomaram pela rua de S. João, desceram a rua que vai ter ao teatro de Sadlerwell, costearam Exmouth Street Coppice-Row; atravessaram o terreno helênico que se chamava outrora Hokley in the Hot, e chegaram a Little Saffron Hill e Great Saffron Hill, que o Matreiro atravessou com passo rápido, recomendando a Oliver que o não perdesse de vista.

Posto que Oliver fizesse isso mesmo, não deixava de lançar alguns olhares furtivos para os dois lados da rua: era o lugar mais sujo e miserável que ele tinha visto. A rua era estreita e úmida e o ar, carregado de miasmas fétidos. Havia um grande número de lojas pequenas onde as crianças berravam apesar da hora adiantada da noite. Os únicos lugares que pareciam prosperar eram as tavernas, onde irlandeses das fezes do povo, isto é, das fezes da espécie humana, discutiam com todas as forças. Vielas e passagens estreitas deixavam ver algumas casas miseráveis, diante das quais homens e mulheres embriagados rolavam na lama da rua; e às vezes saíam com precaução desses antros indivíduos de cara sinistra, cujas intenções não pareciam ser louváveis nem tranquilizadoras.

Oliver estava a perguntar a si mesmo se não era melhor fugir, quando chegaram ambos ao fim da rua. Segurou-lhe o guia no braço, empurrou a porta de uma casa próxima de Fieldlane, fê-lo entrar em uma alameda e fechou a porta.

— Quem vem lá? — gritou uma voz em resposta a um assobio do Matreiro. — Plummy e Slam! — foi a resposta.

Era sem dúvida uma senha para indicar que tudo ia bem.

A fraca luz de uma vela iluminou a parede no fundo da alameda e viu-se aparecer uma cabeça ao nível do solo, por trás de uma escada quebrada que outrora levava a uma cozinha.

— São dois — disse o homem levantando a vela e pondo a mão por cima dos olhos para melhor distinguir os objetos. — Quem é o outro?

— Um recruta, respondeu Jack Dawkins, apresentando Oliver.

— De onde vem?

— Do país dos inocentes. Fagin está em cima?

— Está separando os lenços. Subam.

O homem desapareceu e eles ficaram nas trevas.

Sempre levado pelo companheiro, que lhe segurava na mão, Oliver apalpava com a outra o lugar em que andava. Subiu dificilmente na escuridão os degraus arruinados que o seu companheiro trepava com uma presteza denunciadora do muito que ele os conhecia.

O Matreiro empurrou a porta de um quarto e introduziu Oliver. As paredes e o teto estavam sujos pelo tempo e pelo desmazelo. Diante da lareira, em uma mesa de pinho, havia uma vela metida no gargalo de uma garrafa, duas ou três canecas de estanho, um pão, manteiga e um prato. Estavam ao fogo algumas salsichas, ao pé das quais se achava um velho judeu com um garfo na mão.

O rosto do judeu estava todo cortado de rugas, e as feições ignóbeis e repelentes desapareciam em parte debaixo de uma camada de cabelos ruivos que lhe caía pelas fontes; vestia um chambre velho de flanela, não tinha gravata e parecia dividir a sua atenção entre a assadeira e uma corda onde estava pendurada uma porção de lenços.

Havia no quarto uma porção de ruins camas feitas com sacos velhos. À roda da mesa, quatro ou cinco crianças da idade do Matreiro fumavam cachimbo e bebiam licor com ares de rapazes feitos.

O Matreiro disse algumas palavras em voz baixa ao judeu; os pequenos vieram ter com o Matreiro e voltaram-se rindo para Oliver. O mesmo fez o judeu, sempre com o garfo na mão.

— Apresento-lhe o meu amigo Oliver Twist — disse Jack Dawkins.

O judeu riu-se fazendo uma careta. Fez um grande cumprimento a Oliver, travou-lhe da mão e disse que esperava ter a honra de estreitar relações.

Os outros pequenos vieram apertar a mão de Oliver, de maneira que lhe caiu o embrulho; um deles apressou-se a desembaraçá-lo do boné; outro teve a bondade de lhe examinar as algibeiras para lhe poupar o trabalho de as esvaziar quando se fosse deitar. Não teriam parado nisto os obséquios, se o judeu não começasse a dar garfadas na cabeça e nos ombros dos cinco peraltas.

— Temos muito prazer em receber-te aqui Oliver — disse o judeu. — Matreiro, tira do fogo algumas salsichas e aproxima um banquinho para Oliver. Ah! Estás admirado dos lenços? É uma bela coleção, não, meu amigo? Acabamos de os preparar para a barrela. Nada mais, Oliver; nada mais. Eh! Eh! Eh!

As últimas palavras do judeu foram recebidas com aclamação pelos jovens discípulos.

Depois começou a ceia.

Oliver comeu o seu quinhão; o judeu preparou-lhe depois um copo de grog feito com genebra recomendando que o bebesse de um só trago, porque outro conviva precisava do copo. Oliver obedeceu; daí a pouco sentiu-se levado brandamente para cima de um dos sacos, onde dormiu profundamente.

 

A pequena Nell adoece

Da Loja de Antiguidades, 1841.

Tradução de Ana Macedo e Sousa

Nell Trent, uma órfã de pai e mãe bela e virtuosa “com quase quatorze anos”, vive com o seu querido avô materno em sua velha loja de curiosidades. Seu único amigo é Kit, um rapaz honesto que trabalha na loja. O avô, secretamente obcecado em garantir que Nell não morra na pobreza, vai à bancarrota nas mesas de jogo e é obrigado entregar a loja ao perverso Daniel Quilp, um agiota anão e corcunda grotescamente deformado. Expulsos da loja, o avô sofre um colapso nervoso e Nell consegue levá-lo ao interior para viverem como mendigos. Intrigado com a súbita partida dos dois, o irmão mais velho de Nell, um delinquente, convicto de que o velho escondeu uma grande fortuna para a neta, convence o bem intencionado Dick Swiveller a rastreá-los e se casar com ela para se apoderar da herança. Eles juntam forças com Quilp, que mesmo sabendo não haver nenhuma fortuna os ajuda só para desfrutar sadicamente o sofrimento que isso trará a todos. Kit, por sua vez, consegue emprego na casa de Mr. e Mrs. Garland, e quando ele começa a procurar por Nell, Quilp forja um incidente para incriminá-lo e ele é preso, mas Dick Swiveller consegue provar a sua inocência. Quilp foge e morre tentando escapar de seus perseguidores. Enquanto isso Nell, após cair nas mãos de diversas figuras, ora cruéis ora gentis, consegue conduzir seu avô em segurança a um vilarejo distante, onde são ajudados por um mestre-escola e um bacharel local. Mas tudo isso custa a sua saúde, e ela cai desacordada. Mr. Garland descobre por acaso o paradeiro dos dois, e ele e Kit vão ao seu encontro acompanhados de um senhor que que aparecera por lá buscando pelo velho, de quem descobrimos ser o irmão mais novo, separado na infância. Kit chega primeiro, e encontra o avô sozinho ao pé da cama da neta. Subitamente a porta parece se abrir.

 

– Quem está aí? [disse o velho.] Fecha a porta. Depressa! Não há já bastante que fazer para afastar este frio de mármore e conservá-la quente?!

A porta tinha de facto sido aberta, entrando Mr. Garland e o seu amigo, acompanhados por duas outras pessoas. Estas eram o mestre-escola e o bacharel. O primeiro trazia uma luz na mão. Tinha apenas ido até à sua casa, encher a lamparina que se tinha apagado, no momento em que Kit entrou e encontrou o velho sozinho.

Ele acalmou-se novamente ao ver estes dois amigos, abandonando os modos zangados, se é que esta expressão se pode aplicar à maneira tão débil e tão triste como falara quando tinham aberto a porta. Voltou a sentar-se na cadeira onde tinha estado inicialmente, entregando-se, pouco a pouco, à sua anterior atitude, e à mesma toada plangente e incerta.

Não prestou a menor atenção aos estranhos. Tinha-os visto, mas não demonstrou o menor interesse ou curiosidade por eles. O irmão mais novo manteve-se afastado. O bacharel puxou uma cadeira para junto do velho, e sentou-se ao seu lado. Após um longo silêncio, atreveu-se a falar.

– Lá vai mais outra noite, e o senhor sem se deitar! – disse ele brandamente. – Estava esperançado que se lembrasse de cumprir o que me prometeu. Porque é que não vai descansar?

– O sono abandonou-me – respondeu o velho. – Foi todo para ela!

– Ela ficaria muito triste se soubesse que o senhor passa as noites em vigília – disse o bacharel. – Não quer que ela sofra, pois não?

– Não estou muito seguro quanto a isso. Se ao menos conseguisse que ela acordasse! Ela dorme há já tanto tempo… e, no entanto, reconheço que sou irrefletido ao dizer isto. É um sono descansado e feliz, não é?

– Certamente que é! – respondeu o bacharel.

– Tenho a certeza absoluta que é!

– Ainda bem! e o despertar… – balbuciou o velho.

– Também será feliz. Muito mais feliz do que se possa dizer ou imaginar.

Observaram-no enquanto se soerguia e se dirigia em bicos de pés para o outro quarto onde o candeeiro tinha sido substituído. Eles ouviam-no enquanto falava rodeado pelas paredes silenciosas. Olharam uns para os outros e em todas as faces havia lágrimas. O velho regressou afirmando, num sussurro, que ela continuava a dormir, mas que lhe parecia que se tinha mexido.

Tinha sido a mão, disse ele, que se tinha deslocado um pouco, poucochinho, mas ele tinha a certeza absoluta que ela se tinha mexido, talvez à procura da dele. Já a tinha visto fazer a mesma coisa noutras ocasiões, ainda que mergulhada no sono mais profundo. Dizendo isto, deixou-se cair novamente na cadeira, e juntando as mãos acima da cabeça, deu um grito que os outros jamais esqueceriam.

O pobre mestre-escola fez sinal ao bacharel para que viesse para o outro lado, para lhe falar. Separaram-lhe suavemente os dedos, que ele tinha entrançados no próprio cabelo grisalho e apertaram-nos nos seus.

– Ele há-de ouvir-me – disse o mestre-escola, – tenho a certeza disso. Há-de ouvir a mim ou a si, se lhe pedirmos. Ela fazia-o sempre.

– Darei ouvidos a qualquer das vozes que ela gostava de ouvir – exclamou o velho. – Amo tudo o que ela amou!

– Bem sei – retorquiu o mestre-escola. – Tenho a certeza disso. Pense nela, pense em todas as tristezas e aflições que viveram juntos, em todas as provações, e nos prazeres tranquilos que juntos conheceram.

– Penso, penso. Não penso noutra coisa.

– Gostaria que esta noite não pensasse em mais nada, em nada a não ser nas coisas que lhe apaziguam o coração, meu querido amigo, e que o abrisse às velhas amizades e aos velhos tempos. Isto é o que ela mesma lhe diria, e é em nome dela que eu lho digo agora.

– Faz bem em falar baixo – disse o velho. – Assim não a acordamos. Gostaria de voltar a ver os olhos dela e de a ver sorrir. O seu rosto tem agora um sorriso juvenil, mas é estático, não muda. Gostaria que ele viesse e se fosse. Mas isso só acontecerá quando for a vontade de Deus. Não a vamos acordar.

– Não falemos dela a dormir, mas de como ela costumava ser quando ambos viajavam juntos, por terras distantes, de como ela era quando estava em casa, na velha casa donde fugiram juntos, de como ela era nos bons velhos tempos disse o mestre-escola.

– Ela estava sempre alegre, muito alegre – exclamou o velho, olhando-o fixamente. – Lembro-me, desde o princípio, de sempre ter havido nela qualquer coisa de meigo e de doce. Ela era um temperamento alegre.

– Temos ouvido dizer – acrescentou o mestre-escola que tanto nesse aspecto, como na sua bondade, ela se parecia com a mãe.

Ele continuou a olhá-lo com insistência, mas não respondeu.

– Ou talvez se parecesse também com alguma antepassada – disse o bacharel. – Já se passaram muitos anos, e a dor faz o tempo parecer mais longo, mas certamente não esqueceu aquela cuja morte contribuiu para que esta criança se tornasse tão querida para si, mesmo antes de saber se ela o merecia ou de conhecer as qualidades do seu coração. Digamos que conseguia fazer os seus pensamentos recuar até um tempo que se perdeu na distância, ao tempo da sua juventude, quando, ao contrário desta florzinha, o senhor não passava a sua adolescência sozinho. Digamos que conseguia lembrar-se, há muito tempo, de outra criança que o amava ternamente, quando o senhor era apenas uma criança. Lembra-se que tinha um irmão, há muito esquecido, que não vê há muito tempo, que se encontra há muitos anos longe de si, e que agora, finalmente, quando o senhor mais precisa dele, regressa para o confortar e consolar…

– Que irá ser para ti aquilo que em tempos tu foste para ele – exclamou o mais novo, caindo de joelhos diante do irmão. – Que irá retribuir a afeição que lhe dedicaste há muitos anos, meu querido irmão, com um cuidado, uma solicitude e um amor constantes, para ser, ao teu lado, aquilo que nunca deixei de ser, mesmo quando havia oceanos a separar-nos. Para testemunhar a tua inabalável constância e os cuidados dos velhos tempos, os anos inteiros de desolação. Dá-me uma só palavra de reconhecimento, meu irmão, e nunca, nunca, nem nos melhores momentos da nossa juventude, quando não passávamos de uns pobres rapazes estouvados e planeávamos passar juntos o resto das nossas vidas…nunca fomos, nem metade, tão queridos e desvelados um com o outro como iremos ser doravante…

O velho olhou os rostos um a um e mexeu os lábios, mas não saiu qualquer som.

– Se então nos encontrávamos unidos – continuou o irmão mais novo, – como não serão os laços que nos unem agora! O nosso amor e a nossa camaradagem começaram na infância, quando tínhamos a vida toda à nossa frente, e agora irão ser reatados, pois na realidade não passamos de umas crianças. À semelhança de muitos espíritos inquietos, que perseguiram a fortuna, a fama ou o prazer por esse mundo fora, e no fim da vida se retiram para o local onde viram a luz do dia, procurando em vão voltar a ser crianças antes de morrer, também nós, menos afortunados do que eles no nosso passado, mas mais felizes perto do fim das nossas vidas, também nós iremos regressar ao local da nossa infância… regressaremos a casa sem termos realizado nenhuma das esperanças porventura nascidas na idade adulta, sem levarmos conosco nada do que trouxemos, a não ser a nossa antiga amizade, sem termos salvado nada do naufrágio das nossas existências, a não ser aquilo que primeiramente as tornou queridas. Seremos, sem dúvida, umas crianças como éramos antigamente. E mesmo… – acrescentou com voz alterada – mesmo que tenha sucedido aquilo que receio nomear… mesmo que assim seja, querido irmão, não estaremos separados e restar-nos-á esse conforto na nossa grande dor.

Pouco a pouco, o velho foi recuando até ao quarto interior, enquanto ouvia estas palavras. Apontou na sua direção, respondendo, com os lábios a tremerem:

– Vocês estão a conspirar para afastar dela o meu coração. Nunca o conseguirão, nunca, enquanto eu for vivo. Não tenho qualquer familiar ou amigo, a não ser ela, nunca tive e nunca terei. Ela é tudo para mim, nesta vida. Agora é demasiado tarde para nos separarem.

Fazendo-lhes sinal com a mão para que se fossem embora, e chamando-a docemente, entrou no quarto. Os outros, que tinham ficado para trás, juntaram-se, e depois deterem murmurado algumas palavras entre si, não isentas de emoção, nem fáceis de pronunciar, seguiram-no. Moveram-se tão cautelosamente que não se lhes ouviam os passos. Mas entre eles havia soluços e lamentos de dor e de luto.

Ela estava morta. Jazia em paz, deitada no seu pequeno leito. A solene quietude não era de espantar, agora.

Estava morta. Nunca houve sono tão belo e calmo, tão desprovido de sinais de dor. Parecia uma criatura acabada de criar por Deus, que apenas esperasse que Ele lhe insuflasse o sopro da vida, e não alguém que tivesse vivido e passado pela experiência da morte.

O leito estava guarnecido aqui e ali com groselhas de Inverno e folhas verdes, colhidas num local onde ela gostava de passear. “Quando eu morrer, ponham junto de mim qualquer coisa que tenha amado a luz e que tenha estado sempre sob o céu”, tinham sido estas as suas palavras.

Estava morta. A querida, meiga, paciente, nobre Nell, estava morta. O seu pássaro, tão pequeno que a pressão de um dedo teria esmagado, agitava-se tristemente na gaiola, enquanto o coração forte da sua pequena dona estava mudo e imóvel para todo o sempre.

Onde estavam os vestígios das suas preocupações, sofrimentos e cansaços? Tinham desaparecido. A tristeza tinha de facto morrido com ela, mas em seu lugar tinham nascido uma paz e uma felicidade perfeitas, que se refletiam na sua beleza tranquila e no seu repouso absoluto.

E, no entanto, o seu eu jazia ali, inalterável, apesar da mudança. Sim. A velha lareira sorrira sobre aquele rosto doce, que tinha passado, como num sonho, por momentos terríveis de miséria e preocupações. À porta do pobre mestre-escola, numa tarde de Verão, diante da fornalha, numa noite fria e húmida, ao lado do leito tranquilo do rapazinho moribundo, mostrara sempre a mesma expressão doce e bela. Assim se reconhecem os anjos em toda a sua majestade, depois da morte.

O velho segurava entre as suas a pequena mão que apertava contra o peito, para aquecê-la. Era a mão que ela lhe estendera com o seu último sorriso, a mão que o tinha guiado em todas as suas andanças. De vez em quando beijava-a. Depois apertava-a novamente contra o peito, afirmando que agora estava mais quente, e quando fazia isto olhava, com ar torturado, para os que o rodeavam, como se lhes estivesse a implorar que a ajudassem. Estava morta e já nada lhe podia valer, nem tinha necessidade de coisa alguma. Os velhos aposentos que ela parecera ter enchido de vida, mesmo quando a sua própria vida definhava- rapidamente, o jardim de que cuidara, os olhos que alegrara, os recantos silenciosos de tantas horas de meditação, os caminhos que percorrera como se tivesse sido apenas ontem, nunca mais a veriam.

– Não é… – disse o mestre-escola enquanto se inclinava, chorando, para lhe beijara face, – não é na Terra que se faz a justiça do Céu. Pensem no que ela representa se a compararmos com o Mundo para onde voou o seu jovem espírito, e respondam-me: Se um desejo solenemente expresso sobre este leito pudesse trazê-la de volta à vida, qual de nós é que o pronunciaria?

 

Edições: Grandes Esperanças (Coleção Clássicos Penguin Cia. das Letras); Oliver Twist (editora Hedra); A Loja de Antiguidades (Ediclube).
Ilustração: crianças de idades e identidades desconhecidas trabalhando em Avondable Mills, Birmingham, Alabama, 1910. Autor desconhecido.