Um dia na vida de Frederico o Grande

Do Presente estado da música na Alemanha, Países baixos e Províncias Unidas de Charles Burney. Londres, 1773 d.C.

Como alguns leitores talvez estejam curiosos de saber como sua majestade passa seu tempo todos os dias na corte de Sans-Souci, eu apresentarei aqui com detalhes aquela rotina à qual ele aderiu, em tempos de paz, desde que começou seu reinado: com efeito, a evolução de seus soldados nas paradas não pode ser mais exata do que os seus próprios movimentos cotidianos.

A hora em que sua majestade desperta é sempre às quatro da manhã, durante o verão, e às cinco no inverno; e dessa hora até as nove, quando seus ministros de diferentes departamentos o atendem, ele emprega seu tempo lendo correspondências e respondendo-as à margem. Então ele toma uma tigela de café, e segue com os negócios junto aos seus ministros, que chegam apreensivos, cheios de dúvidas, dificuldades, documentos, petições e mais papeis para serem lidos. Com estes ele gasta duas horas, e então exercita o seu próprio regimento na troca de guarda, assim como o mais jovem coronel a seu serviço.

Às doze ele ceia. Sua ceia é longa e geralmente com doze ou catorze pessoas; depois disso ele concede uma hora aos artistas e projetistas: então lê e assina cartas escritas por seus secretários a partir das notas marginais que ele lançou pela manhã. Quando isso acaba, ele considera que os negócios do dia estão cumpridos; o resto é dado à diversão; após o seu concerto vespertino, ele passa algum tempo na conversação, se estiver bem disposto para isso, e os membros de sua corte estão constantemente esperando por essa oportunidade; mas seja esse o caso ou não, ele tem um leitor para ler, todas as tardes, títulos e extratos de novos livros, entre os quais ele assinala aqueles que gostaria de ver adquiridos para sua biblioteca, ou de ler em seu gabinete. É desse modo que passa seu tempo quando não está no campo de batalha, revendo suas tropas, ou viajando: sempre se retirando às dez, depois do que, no entanto, ele frequentemente lê, escreve ou compõe música para sua flauta, antes de ir para cama.

Fui conduzido [a Sans-Souci] entre as cinco e seis da tarde, por um oficial da casa, uma pessoa privilegiada, do contrário teria sido impossível para um estrangeiro como eu ganhar admissão no palácio onde mora o rei; e mesmo com meu bem conhecido guia, fui submetido a um exame severo, não só ao deixar os portões de Potsdam, mas a cada porta de seu palácio. Ao chegarmos em seu vestíbulo, fomos recebidos pelo senhor de Catt, leitor de sua majestade, e membro da academia real, a quem eu levava uma carta e que muito polidamente recebeu a mim e a meu guia por toda a noite.

Fui levado a um dos aposentos interiores do palácio, no qual os senhores da orquestra do rei esperavam por suas ordens. Este aposento era contiguo à sala de concerto, e nele eu podia ouvir distintamente sua majestade praticando Solfeggi [e outros exercícios] com sua flauta, ensaiando passagens difíceis, antes de convocar a orquestra. Aqui eu encontrei o senhor Benda [um famoso violinista e compositor ligado à corte de Frederico], que foi muito gentil apresentando-me o senhor Quantz [flautista, compositor e professor do rei].

A figura deste músico veterano é de um tamanho incomum[, como diz o poema]:

Com Hércules ele parece ter parentesco,
exibindo ombros largos e um torso gigantesco.

e ele parece gozar de uma porção incomum de saúde e vigor para uma pessoa que chegou ao seu 76o ano. Logo iniciamos uma conversação musical; ele me disse que sua majestade e aluno só toca os concertos compostos por ele expressamente para esse uso, os quais já chegaram aos 300 e que foram tocados pelo rei num rodízio. Este apego exclusivo às produções de seu velho mestre, pode parecer de algum modo estreito; no entanto, isso implica uma constância de disposição, só raramente vista entre os príncipes.

Estas reflexões que me ocorreram enquanto conversava com o senhor Quantz foram interrompidas pela chegada de um mensageiro do rei, ordenando aos senhores de sua orquestra que o atendessem no aposento ao lado.

O concerto começou com um concerto de flauta alemão, no qual sua majestade executou os solos com grande maestria; a sua embocadura era clara e equilibrada, seu dedo brilhante, e seu gosto puro e simples. Foi muito agradável e mesmo surpreendente testemunhar a limpidez de sua execução nos allegros, assim como sua expressividade e sentimento no adagio; em resumo, sua performance superou, em muitos particulares, qualquer coisa que eu jamais ouvi entre Dilettanti ou mesmo profissionais. Sua majestade tocou três longos e difíceis concertos sucessivamente, e todos com igual perfeição.

O senhor Quantz não teve outra função na performance dos concertos dessa noite do que marcar o tempo com gestos de sua mão no início de cada movimento, além de gritar, vez ou outra, bravo! ao seu aluno real, no fim dos solos ou nos desfechos; um privilégio que parece não ter sido conferido a nenhum outro membro da orquestra. As cadências que sua majestade executou foram boas, mas muito longas e estudadas. É fácil intuir que estes concertos foram compostos numa época em que ele não precisava respirar com tanta frequência quanto hoje; pois em algumas dessas divisões, que eram muito longas e difíceis, assim como nos desfechos, ele era obrigado a retomar o fôlego, contrariamente à regra, antes que as passagens terminassem.

Depois que esses concertos foram tocados, o concerto da noite terminou, e eu retornei a Potsdam; mas não sem antes passar pelos mesmos interrogatórios de todos os sentinelas, tal como fiz ao ingressar em Sans-Souci.