Diálogo final de “Assassino sem recompensa”

De Eugène Ionesco. Paris, 1958 d.C.

 

Bérenger, o herói paspalho, é introduzido a um ambicioso empreendimento urbano. Seu inventor, o Arquiteto Municipal, mostra como ali projetaram uma luz do sol perene e um clima de perpétua primavera. Cada vez mais maravilhado com a Cidade Radiosa, Bérenger se surpreende ao notar que as ruas estão vazias e fica sabendo que quem não fugiu está trancado em casa: um assassino anda afogando suas vítimas após convidá-las a ver uma certa “foto do coronel”. O Arquiteto – que também é doutor e chefe de polícia – se espanta com o espanto de Bérenger, afinal, o mundo é mesmo cheio de misérias e assim os jornalistas ganham seu pão.

Ao saber da morte de Dany, a secretária do Arquiteto por quem acabara de se apaixonar, Bérenger decide perseguir o assassino. Logo descobre horrorizado que todos na cidade já se acostumaram há muito tempo com os assassinatos, cada um se alienando à sua maneira, alguns até lucrando com a história. Na cena final, obcecado com o assassino e mais ainda com a indiferença geral, Bérenger decide, como último recurso, ir à Prefeitura.  

Bérenger está agora absolutamente só no palco.

O diretor, o cenógrafo, o técnico da iluminação devem fazer sentir a solidão de Bérenger, o vazio que o envolve, o deserto desta avenida entre a cidade e o campo. […] Bérenger deverá ter o ar de ter caminhando por um longo tempo, durante a cena que se segue. Se não se dispõe de uma esteira giratória, Bérenger pode dar passos sem sair do lugar. Depois, pode-se, por exemplo, novamente fazer com que apareçam muros, aproximá-los como num corredor, a fim de dar a impressão de que Bérenger será preso numa emboscada […].

(Ruído do vento; uma folha morta rodopia; Bérenger ergue o colarinho para cima).

BÉRENGER: Este vento, agora, sobre o caminho. E o dia que cai… Será preciso mudar tudo. […] (Ele retoma o caminho). Preciso chegar antes que anoiteça. Parece que o caminho é meio incerto. Ainda está longe… Nunca chega… eu não consigo avançar. É como se eu andasse sem sair do lugar. (Silêncio). […] Até parece que tenho medo, mas não é verdade. Estou acostumado à solidão… (Ele caminha em silêncio) Sempre fui só… Mas eu amo a humanidade, só que de longe. Que diferença isso faz, se me interesso pela sua sorte? A prova: eu ajo… (ele sorri) eu ajo… eu ajo… eu ajo… difícil de pronunciar! Estou na metade do caminho. Ainda não. Daqui a pouco… (Ele prossegue, com um passo indeciso; caminhando, lança olhares para trás de si)… Eu tenho que impedir o mal! Sim, sim, estou confiante. Até porque, já fui longe demais, o caminho pra casa já está mais escuro. Aqui está mais claro! […]

(Retomando seu caminho com mais precaução: ) Parece que não, mas eu estou seguindo um caminho… Sim, sim… não dá pra negar… Olhando, parece que não, mas estou avançando… Estou avançando… […] (Ele ri. O Eco responde vagamente ao riso… Bérenger volta a cabeça, assustado) Quê? É o Eco… (ele retoma sua caminhada). Não, ninguém. Preciso continuar… preciso seguir em frente! (Para). Não. Não. Não vale a pena, eu vou chegar tarde demais mesmo. (Ainda dois ou três passos na direção da suposta prefeitura) Umas vítimas a mais, não é grande coisa no estado em que chegamos!…

É tarde demais (Ele olha o seu relógio). Meu relógio parou… […] Só preciso me encontrar! É por ali! (Ele se volta vivamente, ainda, e vê, de repente, bem perto, na sua frente, o Assassino) Ah!…

Bem entendido, o cenário não se move mais. Na verdade, quase já não há cenário. Só resta um muro, um banco. O vazio na planície. Um vago luar no horizonte. Os projetores iluminam os dois personagens com uma luz mortiça, o resto fica na penumbra.

O Assassino é pequenininho, mal barbeado, doentio, um chapéu rasgado na cabeça, um velho gabardine usado, ele é caolho; seu único olho tem reflexos de aço; figura imóvel, como que fixado no chão; sapatos velhos com as pontas furadas deixam à mostra seus polegares; […]

Uma outra possibilidade: não há Assassino. Só ouvimos suas troças. Bérenger fala só, na penumbra.

BÉRENGER: É ele, é o Assassino! (Falando ao Assassino: ) Então, é você!

(O Assassino troça. Bérenger olha em torno com inquietação).

[…] Vou chamar a polícia, você vai pra cadeia. Inútil, é? Como assim inútil? Quem disse que não vão me ouvir daqui?

O Assassino desce de seu banco ou de seu pedaço de muro e se aproxima, com uma indiferença notável, troçando vagamente de Bérenger; ele tem as duas mãos nos bolsos.  

 BÉRENGER: Por que? Me diz, por que? (O Assassino troça, levanta um pouco os ombros; ele está bem perto de Bérenger; Bérenger deve parecer não só maior, mas também muito mais vigoroso que o Assassino, quase anão. Bérenger descarrega um riso nervoso) Ah, mas você é bem esquálido, fracote demais pra um criminoso, meu pobre amigo! Você não me assusta! Olha pra mim, olha como sou mais forte que você. Um peteleco, um peteleco e eu te derrubo. […] Eu-não-tenho-medo-de-você! Eu podia te esmagar como uma minhoca. Mas não vou fazer isso. Eu quero entender. Você vai responder às minhas perguntas. Afinal você é um ser humano, não é? Você deve ter suas razões. Você vai me explicar, se não eu… […] por que?… Responde! […] Alguém que faz as coisas que você faz, faz provavelmente porque… Olha… Você atrapalhou a minha felicidade, e a de um monte de gente… Esse bairro da cidade tão luminoso, que iria com certeza iluminar o mundo inteiro… […] ia iluminar você, ela ia emocionar você e um monte de gente, você faria a sua vida feliz… Só precisaria esperar, era tudo uma questão de paciência… A impaciência, é isso que estraga tudo… sim, você seria feliz, até você seria feliz, a felicidade seria cada vez maior, talvez você não soubesse, talvez não acreditasse… Você se enganou… Pois é, foi a sua própria felicidade que você destruiu; a sua, a minha, a de todo mundo… (Leve troça do Assassino.) Com certeza você não acredita na felicidade. Você acha que a felicidade é impossível nesse mundo, né? Você quer destruir o mundo, porque acha que o mundo está condenado a ser infeliz. Não é isso? […] Você não pensou nem por um minuto que podia estar errado? […] É um orgulho estúpido. Antes de resolver a questão com um julgamento definitivo, deixe ao menos cada um fazer a sua própria experiência. […] (Troça do Assassino.) Você é um pessimista? (Troça do Assassino.) Você é um niilista? (Troça do Assassino.) Um anarquista? (Troça do Assassino.) Talvez a felicidade seja outra coisa pra você? Me diz, qual é a sua ideia da vida; qual é a sua filosofia? Suas motivações? […] Responde! (Troça do Assassino.) Talvez você ache que a espécie humana é perversa por natureza… A gente pode debater publicamente, discutir esse problema, […] eu te desafio! (Troça, alçar de ombros do Assassino.) Talvez você mate essas pessoas por bondade! Pra impedir que elas sofram! Você acha que a vida é um sofrimento! Será que você quer curar as pessoas da obsessão pela morte? Você acha como um monte de gente que o homem é um animal doente, que ele sempre vai ser assim, mesmo com todos os privilégios sociais, técnicas científicas, e você quer praticar uma espécie de eutanásia universal, não é isso? Bom, é um erro, sabia, um erro. Responde! Se a vida é curta demais, se ela não vale nada, o sofrimento da humanidade também vai ser curto […] Deixe eles morrerem sozinhos, e logo os problemas vão acabar. Tudo vai acabar por sua própria conta. […] (Troça do Assassino). Mas você prefere se pôr numa situação absurda: se você se acha o benfeitor da humanidade destruindo ela, só está se enganando, é uma idiotice!… Você não tem medo do ridículo? Hein? […] (Grande riso nervoso de Bérenger; depois, tendo observado por alguns instantes o Assassino: ) Já entendi o problema, já entendi porque você se irrita tanto. Responde: você detesta a espécie humana? Você detesta a espécie humana? E por que? Responde! (Troça do Assassino.) Se é isso, não adianta perseguir os outros por causa do seu ódio, é inútil, só faz você sofrer; faz mal odiar os outros, é melhor desprezar eles, SIM EU PERMITO QUE VOCÊ despreze eles; afaste-se deles, vá viver nas montanhas, ser pastor, que tal, viver com as ovelhas, os cachorros. (Troça do Assassino.) Você também não gosta dos bichos? Não gosta de nada que é vivo? Nem das plantas?… Mas e as pedras, o sol, as estrelas, o céu azul? Não. Não, como eu sou idiota. Ninguém pode detestar tudo! Você acha que a sociedade é má, que não pode ser consertada, que os revolucionários são uns babacas? (Dar de ombros do Assassino.) […] Aah! É impossível dialogar com você! Olha, eu tô começando a me irritar, cuidado, hein! Não… não… eu não vou perder o sangue frio. Eu preciso te entender. […] Eu vou falar com franqueza. Até agora pouco eu queria me vingar, eu e todo mundo. Eu queria que você parasse, que você fosse guilhotinado. Mas a vingança é estúpida. O castigo não é o caminho. Eu estava furioso, queria que você morresse… Mas quando eu te vi… não de cara, nem logo depois, não, mas passado um tempinho, eu te… é ridículo dizer, você não vai acreditar em mim, […] sim… você é um ser humano, nós somos da mesma espécie, precisamos nos entender, é nosso dever!… depois de um tempinho, eu te amei, ou quase… porque somos irmãos… e se eu detestar você, eu tenho de detestar a mim mesmo… (Troça do Assassino). Não ri não: isso existe, a solidariedade, a fraternidade humana, eu tenho certeza, não ri não (Troça, dar de ombros do Assassino)… Ah, mas você é um… você é um belo dum… olha, escuta. Nós somos mais fortes; eu mesmo sou mais forte fisicamente que você, seu doente miserável, estúpido! Além disso, eu tenho a Lei do meu lado!… a polícia! A justiça, todas as forças da ordem! (Mesmo gesto do Assassino.) Eu não vou me deixar levar, não vou… me desculpe, você tem mais controle dos seus atos do que eu… mas estou mais calmo, sim, mais calmo… não se assuste… Bom, você não parece mesmo assustado… Quero dizer, não me entenda mal… mas você também não está me entendendo mal… não, não era isso; não sei… Ah, sim, sim… talvez você não saiba: (Muito forte: ) O CRISTO MORREU NA CRUZ POR VOCÊ, ELE SOFREU POR VOCÊ, ELE TE AMOU! Com certeza você precisa ser amado, você acha que não, mas precisa! Eu te dou minha palavra de honra que os santos derramam lágrimas por você, torrentes, oceanos de lágrimas. Você está molhado da cabeça aos pés, é impossível que você não se sinta nem um pouquinho molhado! (Troça do Assassino.) Não ri. Você não acredita é, não acredita!… Se um Cristo não é suficiente, eu me comprometo solenemente a subir todos os calvários só por você, a crucificar todos, por amor a você, um batalhão de salvadores!… Será preciso encontrá-los, mas eu encontrarei! Que tal? (Troça do Assassino.) Você quer que o mundo inteiro se perca pra te salvar, pra te dar um instante de felicidade, um sorriso? Isso também dá pra fazer! Eu estou pronto pra te abraçar, pra fazer parte dos teus consoladores; eu vou cuidar das tuas feridas, porque você tem muitas feridas, não tem? Você sofre o tempo todo? Eu tenho pena de você, sabia? Você quer que eu lave seus pés? Você quer sapatos novos depois? Você tem horror do sentimentalismo ingênuo. Sim, eu sei, não dá pra te pegar pelos sentimentos. […] Você tem medo de ser enganado! […] Os homens são todos irmãos, claro, são semelhantes que nem sempre se assemelham. Mas existe um ponto em comum. […] Viu só, eu fiz bem de não me desesperar por você. Nós podemos falar a língua da razão. […] Você é um homem de ciência, não é, um homem moderno, não é, já entendi, um homem cerebral?! Você nega o amor, você duvida da caridade, ela não entra nos seus cálculos e você acha que é uma bobagem! […], mas, cá entre nós, vejamos: o que você ganha com isso tudo? […] Como isso te ajuda? Mate todo mundo, se quiser, mas mate em espírito… deixe as pessoas viverem fisicamente. (Dar de ombros, troça do Assassino.) Ah, sim, isso seria uma contradição bem cômica, certo? […] Você prefere uma filosofia prática, você é um homem de ação. Ótimo. Mas aonde vai dar essa ação? Qual é o seu objetivo final? […] (Troça do Assassino). Olha, você é pobre, quer dinheiro? Eu posso te achar um trabalho, uma boa situação… Não. Você não é pobre? Rico?… Aah… certo, nem rico, nem pobre!… (Troça do Assassino.) Entendi, você não quer trabalhar: você não precisa trabalhar. Eu cuido de você, ou, melhor, porque eu também sou pobre, eu vou dar um jeito, a gente faz uma vaquinha, eu tenho amigos. E você vai viver tranquilamente. A gente vai no café, no bar, eu vou te arrumar umas meninas fáceis… O crime não compensa. Não cometa outros crimes, você vai ser pago. […] Topa? Responde, vai, responde! Você fala a minha língua? … Olha, eu vou te fazer uma confissão doida. Eu mesmo, várias vezes, duvido de tudo. Não fala pra ninguém. Eu duvido da utilidade da vida, do sentido da vida, dos meus valores, e de todas as dialéticas. Eu não sei mais no que me segurar, não existe nem verdade nem caridade, é, talvez. Mas nesse caso, seja filósofo: se tudo é vaidade, se a caridade é vaidade, o crime também é vaidade… Você é burro se, sabendo que tudo não passa de pó, dá algum valor ao crime, porque significa dar valor à vida… Significa levar tudo a sério… viu, olha aí, você está totalmente em contradição com você mesmo. (Riso nervoso de Bérenger.) Quê? É claro, é lógico, agora eu te peguei. Desculpe, mas você é lamentável, um pobre de espírito, um pobre coitado. A gente tem todo direito de rir de você. Você quer que riam de você? […] Com certeza você tem muito amor próprio, o culto da sua inteligência. Nada é pior do que ser um burro. É muito pior que ser um criminoso, mesmo a loucura tem uma aura. Mas burro? […] (Troça do Assassino.) Todo mundo vai te apontar o dedo. Vão dizer: “Ha! Ha! Ha! (Troça do Assassino; fracasso cada vez mais visível de Bérenger.) Olha só que idiota, olha que idiota! Ha! Ha! Ha! (Troça do Assassino.) Ele mata as pessoas, ele tem um baita trabalhão. Ha! Ha! Ha! e não ganha nada, porcaria nenhuma… Ha! Ha!” […] (Troça do Assassino.)… Quem acredita no valor do crime em si? Ha! Ha! (O riso de Bérenger esfria de repente.) Responde! É isso que vão dizer, sim… se sobrar gente pra dizer… (Bérenger aperta as mãos, as junta, implora, se ajoelha diante do Assassino.) Não sei mais o que dizer. Nós certamente erramos com você. (Troça do Assassino.) Ou talvez não (Mesma troça.) Sei lá. Talvez o que você faça seja mau, ou talvez bom, ou talvez nem bom nem mau. Não sei o que dizer. É possível que a vida da raça humana não tenha nenhuma importância, então a sua desaparição não tem nenhuma importância… Talvez o universo inteiro seja inútil e você tenha razão de querer que ele exploda, ou pelo menos de mastigá-lo, criatura por criatura, pedaço por pedaço… Vai saber! Vamos fazer tábula rasa disso tudo. Vamos esquecer os males que você já fez… (Troça do Assassino.) Combinado? Você mata sem motivo, nesse caso, eu imploro, sem motivo, eu suplico, sim, chega… Você mata sem motivo, pare sem motivo. Deixe as pessoas tranquilas, viverem estupidamente, deixe eles pra lá […]… Promete pra mim, pare ao menos por um mês… eu suplico, por uma semana, por quarenta e oito horas, só pra gente respirar… Que tal, não é bom?… (O Assassino troça um pouco, tira de seu bolso, bem lentamente, uma faca com uma grande lâmina brilhante e brinca com ela.) Canalha! Crápula! Maldito sanguinário! Você é mais feio que um sapo! Mais selvagem que um tigre, mais estúpido que um asno… Eu me ajoelhei… sim, mas não é pra te implorar… É pra ver melhor… Eu vou te derrubar, depois eu vou te arrastar pelos pés, vou te esmagar, seu merda, porco escroto! (Bérenger saca de seus bolsos duas pistolas, aponta-as na direção do Assassino que não move uma sobrancelha.) Eu vou te matar, você vai pagar caro, eu vou atirar, depois vou te pendurar, vou te picar em mil pedacinhos, vou jogar as suas cinzas no inferno com os excrementos de onde você vem, vômito de cão sarnento dos diabos, criminoso desgraçado… (O Assassino continua a brincar com a sua faca; troça levemente; imóvel; ergue ligeiramente os ombros.) Não me olhe assim, eu não tenho medo de você, miserável… (Bérenger mira sem atirar na direção do Assassino que está a dois passos, não hesita, e levanta calmamente sua faca.) Ai… como é fraca minha força perto da sua fria determinação, contra a sua crueldade sem misericórdia!… e que podem as próprias balas contra a energia infinita da sua obstinação? (Sobressalto.) Mas eu teria te, eu teria te… (Depois, mais uma vez, diante do Assassino que mantém sua faca erguida, sem vacilar, Bérenger baixa lentamente suas duas velhas pistolas antiquadas, as deita por terra, inclina a cabeça, depois fica de joelhos, cabisbaixo, os braços pensos, ele repete, balbucia: ) Meu Deus, não há nada a fazer!… Mas por que… Mas por que…

Enquanto o Assassino se aproxima ainda mais…    

FIM