Cristianismo sem lágrimas, ou Do direito de ser infeliz: diálogo entre um bárbaro e um tecnocrata

Capítulo XVII do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Londres, 1932 d.C.

Tradução de Vidal de Oliveira e Lino Vallandro.

No ano 632 depois de Ford (ou 2.540 no extinto calendário gregoriano) a sociedade é organizada num inexorável sistema de castas abastecidas por seres humanos gerados em laboratório. Numa civilização em que o conforto material e o prazer físico – garantidos pela droga soma e pelo sexo recreativo – são as únicas ocupações, um psicólogo do Departamento de Incubação e Condicionamento de Londres,  membro dos Alfa-mais, a classe suprema, parece ser a única pessoa descontente. Ligeiramente mais baixo do que os outros Alfas, Bernard Marx costumes ser desdenhado pelas mulheres, mas consegue atrair a atenção de Lenina Crowne, que aceita acompanhá-lo em férias  a uma Reserva Selvagem do Novo México. Lá conhecem uma mulher que viera de Londres há 20 anos, abandonada por seu parceiro para dar à luz o seu filho. Bernard descobre que o pai é o chefe de seu departamento, e vendo a oportunidade de ganhar poder sobre ele, leva de volta para Londres a mulher, Linda, e seu filho. O diretor, humilhado pela prova de sua conexão com um nascimento natural, foge aterrorizado, enquanto Bernard, antes na clandestinidade social, passa a gozar de grande sucesso por sua associação com a nova celebridade – John, chamado “o Selvagem.”

Criado pelos modos tradicionais da Reserva e por um volume solitário das obras de Shakespeare, John vê uma Londres estranha, confusa e ao fim repulsiva. Reagindo com raiva e violência às investidas sexuais de Lenina, a morte de Linda finalmente o enfurece. Por fim, tentando manter uma multidão de Deltas afastada de sua ração de soma John provoca um motim e é preso, juntamente a Bernard e Hemholtz Watson, um “engenheiro emocional” que quer ser poeta. Os três enfrentam o julgamento do Administrador Mundial Mustafá Mond. Após discutirem as razões do controle social, incluindo as emoções da arte e a curiosidade da ciência, Mond bane Bernard e Helmholtz para as Ilhas Falkland pelo seu papel no tumulto. Bernard, em pânico, é dopado com uma dose extra de soma, enquanto Hemlmoltz parte satisfeito com a nova vida, distante das pressões do conformismo.

 

— A arte, a ciência… Parece-me que os senhores pagaram um preço bastante alto pela sua felicidade – observou o Selvagem, quando ficaram sós. – Mais alguma coisa?

— Bem, a religião, naturalmente – respondeu o Administrador. – Havia outrora algo que se chamava Deus, antes da Guerra dos Nove Anos. Mas esquecia-me: o senhor sabe muito bem o que é Deus, não?

— Ora… – O Selvagem hesitou.

Teria gostado de dizer alguma coisa sobre a solidão, a noite, a mesa estendendo-se pálida sob o luar, o precipício, o mergulho nas trevas cheias de sombras, a morte. Teria gostado de falar, mas não encontrava palavras. Nem mesmo em Shakespeare.

O Administrador, entretanto, atravessara a sala e dava volta à chave de um grande cofre embutido na parede, entre as estantes de livros. A porta abriu-se. Remexendo na escuridão do interior do cofre, disse:

— É um assunto que sempre me interessou muito. – Puxou um grosso volume negro. – Nunca leu isto, por exemplo?

O Selvagem pegou o livro.

— A Bíblia Sagrada, Contendo o Velho e o Novo Testamento – leu em voz alta no frontispício.

— Nem isto? – Era um livro pequeno, que tinha perdido a capa.

— A Imitação de Cristo.

— Nem isto? – Mostrou-lhe outro volume.

— As Variedades da Experiência Religiosa. Por William James.

— E tenho ainda muitos outros – continuou Mustafá Mond, voltando à sua poltrona. – Toda uma coleção de velhos livros pornográficos. Deus no cofre e Ford nas estantes.

Indicou, rindo, sua biblioteca, as estantes carregadas de livros, os armários cheios de bobinas para máquinas de leitura e rolos de gravação sonora.

— Mas se os senhores não ignoram Deus, por que não falam nele? – perguntou o Selvagem, indignado. – Por que não permitem a leitura desses livros sobre Deus?

— Pela mesma razão por que não apresentamos Otelo: eles são antigos. Tratam de Deus tal qual era há centenas de anos, não de Deus como é agora.

— Mas Deus não muda.

— Acontece que os homens mudam.

— Que diferença faz?

— Um mundo de diferença – retorquiu Mustafá Mond. Levantou-se outra vez e dirigiu-se ao cofre. – Houve um homem que se chamava Cardeal Newman. Um cardeal – explicou, como num parêntese – era uma espécie de Arquichantre.

— “Eu, Pandolfo, da bela Milão cardeal.” Li alguma coisa sobre eles em Shakespeare.

— Sem dúvida. Bem, como eu ia dizendo, havia um homem que se chamava Cardeal Newman. Ah, eis o livro. – Retirou-o do cofre. – E já que estou aqui, vou tirar também este outro. É de um homem que se chamava Maine de Biran. Era um filósofo, se é que sabe o que quer dizer isso.

— Um homem que sonha menos coisas do que as que existem no céu e na terra – respondeu prontamente o Selvagem.

— Perfeitamente. Daqui a pouco vou ler-lhe uma das coisas que ele sonhou. Por enquanto, ouça o que diz este velho Arquichantre. – Abriu o livro no lugar marcado com uma tira de papel e começou a ler: – “Nós não pertencemos a nós mesmos, assim como não nos pertence aquilo que possuímos. Não fomos nós que nos fizemos, não podemos ter a jurisdição suprema sobre nós mesmos. Não somos nossos próprios senhores. Somos a propriedade de Deus. Não é para nós uma felicidade encararmos as coisas desse modo? Será a qualquer título uma felicidade, um conforto, considerarmos que pertencemos a nós mesmos? Os que são jovens e prósperos podem acreditar nisso. Podem crer que é uma grande coisa serem capazes de conseguir tudo segundo seus desejos, como supõem – não dependerem de ninguém, não terem de pensar em nada que não esteja ao alcance da vista, dispensarem a obrigação molesta da gratidão constante, da prece contínua, da incessante referência a tudo o que fazem à vontade de outro. Mas, com o correr do tempo, acabam percebendo, como todos, que a independência não foi feita para o homem – que é um estado antinatural – que pode satisfazer por algum tempo, mas não nos leva com segurança até o fim… ” – Mustafá Mond parou, pousou sobre a mesa o primeiro livro e, tomando o outro, virou-lhe as páginas. – Veja isto, por exemplo – disse, e com sua voz profunda começou a ler novamente: – “Um homem envelhece; percebe em si mesmo aquela sensação radical de fraqueza, de atonia, de mal-estar que acompanha o avançar da idade; e, sentindo-se assim, julga estar apenas doente, aquieta seus temores com a idéia de que esse estado penoso é devido a alguma causa particular, da qual espera curar-se como de uma moléstia. Vãs imaginações! A moléstia é a velhice; e trata-se de uma doença horrível. Dizem que é o medo da morte, e do que vem depois da morte, que leva os homens a voltar-se para a religião à medida que os anos se acumulam. Todavia, a experiência pessoal me trouxe a convicção de que, completamente à parte de tais temores e imaginações, o sentimento religioso tende a desenvolver-se quando envelhecemos; tende a desenvolver-se porque, à medida que as paixões se acalmam, que a fantasia e a sensibilidade vão sendo menos excitadas e menos excitáveis, a razão é menos perturbada em seu exercício, menos obscurecida pelas imagens, desejos e distrações que a absorviam; então, Deus emerge como se tivesse saído detrás de uma nuvem; nossa alma vê, sente a fonte de toda luz, volta-se natural e inevitavelmente para ela; porque, tendo começado a esvair-se dentro de nós tudo aquilo que dava ao mundo das sensações sua vida e seu encanto, não sendo mais a existência material sustentada por impressões externas e internas, sentimos a necessidade de nos apoiarmos em algo que permaneça, que nunca nos traia – uma realidade, uma verdade, absoluta e eterna. Sim, voltamo-nos inevitavelmente para Deus; pois esse sentimento religioso é por natureza tão puro, tão delicioso para a alma que o experimenta, que compensa todas as nossas outras perdas”.

Mustafá Mond fechou o livro e recostou-se na sua poltrona.

— Uma das numerosas coisas do céu e da terra com que não sonharam aqueles filósofos é isto – e agitou a mão; – nós, o mundo moderno. “Só se pode ser independente de Deus enquanto se tem juventude e prosperidade; a independência não nos levará até o fim em segurança.” Pois bem, agora nós temos juventude e prosperidade até o fim. O que resulta daí? Evidentemente, que podemos prescindir de Deus. “O sentimento religioso nos compensará de todas as nossas perdas.” Mas não há, para nós, perdas a serem compensadas; o sentimento religioso é supérfluo. E por que iríamos em busca de um sucedâneo dos desejos infantis, se esses desejos nunca nos faltam? De um sucedâneo das distrações, quando continuamos desfrutando todas as velhas tolices até o fim? Que necessidade temos de repouso, quando nosso corpo e nosso espírito continuam deleitando-se na atividade? De consolo, quando temos o soma. De alguma coisa imutável, quando temos a ordem social?

— Então o senhor acha que não existe um Deus?

— Ao contrário, penso que muito provavelmente existe.

— Então por que… ?

Mustafá Mond atalhou-o.

— Mas ele se manifesta de modo diferente a homens diferentes. Nos tempos pré-modernos, manifestava-se como o ser descrito nesses livros. Agora…

— Como se manifesta ele agora? – perguntou o Selvagem.

— Bem, ele se manifesta como uma ausência; como se absolutamente não existisse.

— A culpa é sua.

— Diga, antes, que a culpa é da civilização. Deus não é compatível com as máquinas, a medicina científica e a felicidade universal. É preciso escolher. Nossa civilização escolheu as máquinas, a medicina e a felicidade. Eis por que é preciso que eu guarde esses livros no cofre. Eles são indecentes. As pessoas ficariam escandalizadas se…

O Selvagem interrompeu-o.

— Mas não é natural sentir que há um Deus?

— O senhor poderia igualmente perguntar se é natural fechar as calças com fechoecler – retrucou o Administrador sarcasticamente.

— Faz-me lembrar outro desses antigos, chamado Bradley. Ele definia a filosofia como a arte de encontrar más razões para aquilo que se crê por instinto. Como se nós acreditássemos em alguma coisa, seja o que for, por instinto! Cremos nas coisas porque somos condicionados a crer nelas. A arte de encontrar más razões para aquilo que se crê por outras más razões, isso é a filosofia. As pessoas crêem em Deus porque foram condicionadas para crer em Deus.

— Ainda assim – insistiu o Selvagem – é natural crer em Deus quando se está só, completamente só, à noite, pensando na morte…

— Mas agora nunca se está só – disse Mustafá Mond. – Fazemos com que todos detestem a solidão, e organizamos a vida de tal forma que seja quase impossível conhecê-la.

O Selvagem concordou inclinando a cabeça com tristeza. Em Malpaís, sofrera porque o haviam excluído das atividades comunais do pueblo; na Londres civilizada, sofria porque nunca podia fugir dessas atividades comunais, nunca podia estar sossegado e só.

— Lembra-se daquela passagem do Rei Lear? – disse por fim. – “Os deuses são justos e de nossos vícios amáveis fazem instrumentos para nos torturar; o lugar sombrio e corrupto em que ele te engendrou custou-lhe os olhos;” e Edmund responde – o senhor se lembra, ele está ferido e agonizante: “Disseste bem; é a verdade. A roda deu a volta completa, e eis-me aqui”. Que diz a isso? Não lhe parece que há um Deus dirigindo as coisas, punindo, recompensando?

— E lhe parece? – interrogou, por sua vez, o Administrador. – O senhor pode entregar-se com uma neutra a todos os vícios amáveis que quiser, sem correr o risco de ter os olhos furados pela amante de seu filho. “A roda deu a volta completa, e eis-me aqui.” Mas onde estaria Edmund, em nossos dias? Sentado numa poltrona pneumática, com o braço em torno da cintura de uma mulher, chupando seu chiclete de hormônio sexual e assistindo a um filme sensível. Os deuses são justos. Sem dúvida. Mas o seu código de leis é ditado, em última instância, pelas pessoas que organizam a sociedade; a Providência recebe a palavra de ordem dos homens.

— Tem certeza disso? – perguntou o Selvagem. – Tem plena certeza de que Edmund, naquela poltrona pneumática, não foi punido tão severamente quanto o Edmund ferido e esvaindo-se em sangue? Os deuses são justos. Não terão usado seus vícios amáveis para degradá-lo?

— Degradá-lo de que posição? Como cidadão feliz, laborioso, consumidor de riquezas, ele é perfeito. Naturalmente, se o senhor escolher um critério de avaliação diferente do nosso, então talvez possa dizer que ele foi degradado. Mas é preciso que nos atenhamos a um só conjunto de postulados. Não se pode jogar o Golfe Eletromagnético segundo as regras da Balatela Centrífuga.

— Mas o valor de uma coisa não está na vontade de cada um. A sua estima e dignidade vem tanto do seu valor real, intrínseco, como da opinião daquele que a tomou. – Vamos, vamos – protestou Mustafá Mond. – Isso é ir um pouco longe demais, não lhe parece?

— Se os senhores se permitissem pensar em Deus, não se deixariam degradar por vícios amáveis. Teriam uma razão para suportar as coisas com paciência, para fazer coisas com coragem! Vi isso entre os índios.

— Estou certo que sim – respondeu Mustafá Mond. – Mas acontece que nós não somos índios. Um homem civilizado não tem por que suportar seja lá o que for de seriamente desagradável. E, quanto a fazer coisas, Ford os preserve de ter jamais tal idéia na cabeça! Toda a ordem social ficaria desorganizada se os homens se pusessem a fazer coisas por iniciativa própria.

— E o desprendimento, então? Se tivessem um Deus, teriam um motivo para o desprendimento.

— Mas a civilização industrial somente é possível quando não há desprendimento. É necessário o gozo até os limites impostos pela higiene e pelas leis econômicas. Sem isso, as rodas cessariam de girar.

— Teriam uma razão para a castidade! – disse o Selvagem, corando levemente ao pronunciar as palavras.

— Mas a castidade significa paixão, a castidade significa neurastenia. E a paixão e a neurastenia significam instabilidade. E a instabilidade é o fim da civilização. Não se pode ter uma civilização duradoura sem uma boa quantidade de vícios amáveis.

— Mas Deus é a razão de ser de tudo o que é nobre, belo, heróico. Se tivessem um Deus…

— Meu jovem amigo, a civilização não tem nenhuma necessidade de nobreza ou de heroísmo. Essas coisas são sintomas de incapacidade política. Numa sociedade convenientemente organizada como a nossa, ninguém tem oportunidade para ser nobre ou heróico. É preciso que as coisas se tornem profundamente instáveis para que tal oportunidade possa apresentar-se. Onde houver guerras, onde houver obrigações de fidelidade múltiplas e antagônicas, onde houver tentações a que se deva resistir, objetos de amor pelos quais se deva combater ou que seja preciso defender, aí, evidentemente, a nobreza e o heroísmo terão algum sentido. Mas não há guerras em nossos dias. Toma-se o maior cuidado em evitar amores extremados, seja por quem for. Não há nada que se assemelhe a obrigações de fidelidade antagônicas; todos são condicionados de tal modo que ninguém pode deixar de fazer o que deve. E o que se deve fazer é, em geral, tão agradável, deixa-se margem a tão grande número de impulsos naturais, que não há, verdadeiramente, tentações a que se deva resistir. E se alguma vez, por algum acaso infeliz, ocorrer de um modo ou de outro qualquer coisa de desagradável, bem, então há o soma, que permite uma fuga da realidade. E sempre há o soma para acalmar a cólera, para nos reconciliar com os inimigos, para nos tornar pacientes e nos ajudar a suportar os dissabores. No passado, não era possível alcançar essas coisas senão com grande esforço e depois de anos de penoso treinamento moral. Hoje, tomam-se dois ou três comprimidos de meio grama, e pronto. Todos podem ser virtuosos agora. Pode-se carregar consigo mesmo, num frasco, pelo menos a metade da própria moralidade. O cristianismo sem lágrimas, eis o que é o soma.

— Mas as lágrimas são necessárias. Não se lembra do que disse Otelo? “Se depois de toda tempestade vêm tais calmarias, então que soprem os ventos até acordar a morte!” Há uma história que os velhos índios costumavam contar, a respeito da Donzela de Mátsaki. Os jovens que desejavam desposá-la deviam passar a manhã capinando o seu jardim com uma enxada. Parecia fácil, mas havia moscas e mosquitos encantados. A maioria dos jovens simplesmente não podia suportar as picadas. Mas aquele que pôde suportá-las ficou com a moça.

— Encantador! Mas nos países civilizados – disse Mustafá Mond – pode-se ter moças sem precisar capinar para elas; e não há moscas nem mosquitos que piquem. Há séculos que nos livramos completamente deles.

O Selvagem inclinou a cabeça em aquiescência, franzindo o sobrolho.

— Livraram-se deles. Sim, é bem o modo dos senhores procederem. Livrar-se de tudo o que é desagradável, em vez de aprender a suportá-lo. Se é mais nobre para a alma sofrer os golpes de funda e as flechas da fortuna adversa, ou pegar em armas contra um oceano de desgraças e, fazendo-lhes frente, destruí-las… Mas os senhores não fazem nem uma coisa nem outra. Não sofrem e não enfrentam. Suprimem, simplesmente, as pedras e as flechas. É fácil demais.

Calou-se repentinamente, pensando na mãe. Em seu quarto do trigésimo sétimo andar. Linda flutuara num mar de luzes cantantes e de carícias perfumadas – e, flutuando, partira para fora do espaço e do tempo, para fora da prisão de suas recordações, de seus hábitos, de seu corpo envelhecido e inchado. E Tomakin, ex-Diretor de Incubação e Condicionamento, estava ainda em fuga pelo soma – em fuga da humilhação e da dor, num mundo onde não podia ouvir aquelas palavras, aquele riso zombeteiro, onde não podia ver aquele rosto hediondo, sentir aqueles braços úmidos e flácidos em torno do pescoço, num mundo de beleza…

— O que os senhores precisam – disse – é de alguma coisa com lágrimas, para variar. Nada custa bastante caro aqui.

(“Doze milhões e quinhentos mil dólares”, tinha protestado Henry Pôster, quando o Selvagem lhe dissera isso. “Doze milhões e quinhentos mil dólares – foi o que custou o novo Centro de Condicionamento. Nem um centavo menos.”)

— Expor o que é mortal e inseguro, por uma casca de ovo embora, ao acaso, ao perigo, à morte. Isso não é alguma coisa? – perguntou ele, erguendo os olhos para Mustafá Mond. – Mesmo abstraindo de Deus, embora Deus, por certo, possa ser uma razão. Não é alguma coisa viver perigosamente?

— Sem dúvida nenhuma – respondeu o Administrador. – Os homens e as mulheres necessitam que se lhes estimulem de tempos em tempos as cápsulas suprarenais.

— O quê? – perguntou o Selvagem, que não compreendera.

— É uma das condições da saúde perfeita. Foi por esse motivo que tornamos obrigatórios os tratamentos de S. P. V.

— S. P. V. ?.

— Sucedâneo de Paixão Violenta. Regularmente, uma vez por mês, inundamos todo o organismo com adrenalina. É o equivalente fisiológico completo do medo e da cólera. Todos os efeitos tônicos de assassinar Desdêmona e de ser assassinada por Otelo, sem nenhum dos inconvenientes.

— Mas eu gosto dos inconvenientes.

— Nós, não. Preferimos fazer as coisas confortavelmente.

— Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.

— Em suma – disse Mustafá Mond – o senhor reclama o direito de ser infeliz.

— Pois bem, seja – retrucou o Selvagem em tom de desafio. – Eu reclamo o direito de ser infeliz.

— Sem falar no direito de ficar velho, feio e impotente; no direito de ter sífilis e câncer; no direito de não ter quase nada que comer; no direito de ter piolhos; no direito de viver com a apreensão constante do que poderá acontecer amanhã; no direito de contrair a febre tifóide; no direito de ser torturado por dores indizíveis de toda espécie.

Houve um longo silêncio.

— Eu os reclamo todos – disse finalmente o Selvagem. Mustafá Mond encolheu os ombros.

— À vontade – respondeu.

 

Edição original: Globo, Porto Alegre, 1979.   
Imagem: Applied Buddhism