Como uma protestante frágil e virgem derrotou a Armada Espanhola católica sem lutar

Discurso às tropas inglesas convocadas em Tilbury na costa de Essex para retaliar a invasão por mar da frota de Felipe II, Rei católico da Espanha, Portugal e Algarves e marido da pretendente ao trono inglês Maria Ia  (vulgo “Blood Mary”), e por terra do exército do Duque de Parma, pronunciado pela Rainha protestante Elizabete Ia, escoltada por somente seis membros de sua guarda pessoal, precedida por Lord Ormonde com a Espada do Estado e por um pajem carregando numa almofada seu elmo emplumado de prata, flanqueada à direita pelo seu Tenente Geral, o Conde de Leicester, e à esquerda por seu Mestre Cavaleiro, o Conde de Essex, montada num garanhão branco empunhando um porrete prateado e dourado e vestindo uma couraça de prata sobre um vestido de veludo branco, figurino que evocou em seus homens tanto a visão de Pallas Atena, a deusa virgem da sabedoria, quanto de Britomart, a ninfa grega metamorfoseada pelo folclore britânico na Dama Cavaleira que no poema épico A Rainha Fada encarna a virtude da Castidade. O discurso aconteceu nove dias depois da batalha naval de Gravelines, o porto na costa da Holanda espanhola na Flandres onde os navios comandados pelo Duque de Medina Sidonia deveriam embarcar as tropas do Duque de Parma, quando o ataque surpresa da esquadra liderada por Sir Francis Drake mandou a pique dezenas de galeões portugueses, napolitanos e espanhóis, forçando a Armada a bater em retirada. No momento em que Elizabete falava a frota de Felipe já contornava a Escócia de onde retornaria à Espanha enquanto a infantaria de Parma aguardava do outro lado do Canal da Mancha para o encontro que jamais aconteceu. Dois dias depois, as tropas inglesas foram dispensadas. – Inglaterra, 1588 d.C.

 

Meu povo amado

Nós fomos persuadidos por alguns que se preocupam com a nossa segurança, a estar atentos a como nós nos dirigimos às multidões armadas, por medo de traição; mas eu asseguro a vocês de que eu não desejo viver para desconfiar do meu fiel e amado povo. Que os tiranos temam! Eu sempre me comportei de modo que, sob Deus, eu pus minha maior força e salvaguarda nos leais corações e na boa vontade dos meus súditos; e portanto eu vim entre vocês, como vocês veem, neste momento, não para a minha recreação ou esporte, mas estando resolvida, no meio e no calor da batalha, a viver e a morrer entre todos vocês; a perder para meu Deus, e para meu reino, e meu povo, a minha honra e o meu sangue, mesmo que seja no pó.

Eu sei que tenho o corpo de uma mulher fraca, frágil; mas eu tenho o coração e o estômago de um rei, e de um rei da Inglaterra também, e parece-me um escárnio abominável que [o Duque de] Parma ou [o Rei da] Espanha, ou qualquer príncipe da Europa, tenham a ousadia de invadir as fronteiras do meu reino; de modo que antes que qualquer desonra aconteça por minha causa, eu mesma pegarei em armas, eu mesma serei seu general, juiz, e o premiador de cada uma das suas virtudes na batalha.

Eu sei desde já que por sua presteza vocês mereceram prêmios e coroas; e Nós lhes asseguramos pela palavra de um príncipe, eles serão devidamente pagos. Enquanto isso, meu Tenente Geral estará em meu lugar, e digo que jamais nenhum príncipe comandou um súdito mais nobre ou digno; não duvido de que pela sua obediência ao meu General, pela sua concórdia no campo, e pela sua coragem na batalha, nós teremos em breve uma famosa vitória sobre estes inimigos de Deus, do meu reino e do meu povo.