A Parábola dos Três Anéis

Em Jerusalém, entre a Terceira e a Quarta Cruzada, um mercador judeu e o Sultão discutem qual é a verdadeira Fé

Do IIIo Ato de Nathan, o Sábio, drama de Gotthold Ephraim Lessing, encenado em Berlim em 1783 d.C.

Retornando dos negócios na Babilônia e Damasco, o rico judeu Nathan ouve de Daya, uma cristã companheira de sua filha adotiva Recha, como esta foi salva de um incêndio em sua casa por um jovem cavaleiro cristão, o qual, alguns dias antes, havia sido capturado pelas forças muçulmanas, mas no momento em que estava para ser decapitado recebeu o perdão do líder muçulmano, o sultão Saladin, estarrecido com a semelhança entre o prisioneiro e seu irmão desaparecido, Assad.

Enquanto isso, Saladin, em seu palácio, joga xadrez com sua irmã Sittah, e a informa de que o tratado de paz com o líder dos cruzados, o rei inglês Ricardo Coração de Leão, está a um passo de se romper. Sem dinheiro para custear o exército, Saladin solicita a seu tesoureiro Al-Hafi que faça um empréstimo e Sittah sugere que o peça ao amigo de Hafi, Nathan.

O mercador por sua vez, desejoso de agradecer o templário o busca e encontra, um alemão, que de pronto se recusa a ter parte com um judeu, mas acaba cedendo à sua insistência e aceita sua hospitalidade. Daya informa que Saladin deseja encontrar Nathan, que logo se vê no dever de satisfazê-lo, pois se o sultão não tivesse salvado o cavaleiro, esse não lhe teria salvado a filha. A caminho do palácio, Nathan cruza Hafi que lhe relata as dificuldades financeiras de Saladin, advertindo que é provavelmente essa a razão do chamado. A cena se desloca então para o palácio, onde Saladin conversa com Sittah.

SITTAH – Encontram-se as suas bestas de carga em todas as estradas, através de todos os desertos, e os seus navios enchem todos os portos. Há muito tempo que o próprio Al-Hafi me contou isto, acrescentando com orgulho com que grandeza, com que nobreza o seu amigo Nathan empregava o que ele não considerava pequeno demais para procurar adquiri-lo pela habilidade e pela solicitude. Dizia que o seu espírito era livre de preconceitos, que o seu coração estava alerta a todas as virtudes, que ele estava em harmonia com tudo o que é belo… Mas enfim, seja ele o que quiserem! Que esse judeu seja mais ou menos judeu, o que ele é, é rico: é o que basta para nós.

SALADIN – Mas tu não queres tirar-lhe os seus bens à força, não é assim, irmã?

SITTAH – Que entendes tu por força? A ferro e fogo? Não, não! Que força é necessária para o fraco senão a sua própria fraqueza!

(…)

SALADIN (voltando-se para a porta) – Traze o judeu aqui logo que ele chegue… Minha irmã, minha irmã!

SITTAH – Dir-se-ia que estás na expectativa duma batalha.

SALADIN – E com armas que nunca aprendi a manejar. Tenho de dissimular, provocar a inquietação, armar laços, seguir por caminhos escorregadios. Quando é que eu soube fazer isso alguma vez? Onde o aprendi? E tudo isso para quê? para quê? Para pescar dinheiro! Dinheiro! Para extorquir dinheiro, dinheiro a um judeu! Dinheiro! E pensar que tenho de descer a tão miseráveis artimanhas para obter a mais miserável das misérias!

SITTAH – Essa miséria vinga-se de ter sido muito desprezada, meu irmão.

SALADIN – Não há dúvida nenhuma. E se esse judeu fosse efetivamente o homem bom e razoável que o derviche te descreveu em tempo?

SITTAH – Bem, então para que é preciso tudo isso? Os laços são bons para o judeu avaro, desconfiado, receoso e não para o homem bom e judicioso. Esse é nosso sem que seja preciso armar-lhe laços. Como será divertido ouvir como um homem desses se expressará, com que força e com que audácia ele romperá o laço que lhe armarem ou ainda com que hábeis precauções ele lhe afastará os nós. Tu podias dar-te a esse divertimento.

SALADIN – Não ha dúvida. Fica certa de que me rejubilo antecipadamente.

SITTAH – Assim nada te deve já prender; porque se ele é apenas um homem vulgar, se é um judeu como os outros judeus, não deves envergonhar-te de lhe parecer o que ele pensa de todos os homens. Mais, aquele que quisesse parecer-lhe melhor, parecer-lhe-ia um tolo, um parvo.

SALADIN – Queres então dizer que devo proceder mal para que os maus não façam má ideia de mim?

SITTAH — Por certo! se chamas proceder mal empregar cada coisa no seu uso conveniente.

SALADIN – Nada há que tenha sonhado uma cabeça feminina que ela não saiba embelezá-lo.

SITTAH — Embelezá-lo?

SALADIN – Receio apenas quebrar na minha pesada mão esse instrumento tão fino, tão pontiagudo! – Devia ser empregado por aquele que inventou, com toda a sua astúcia, com toda a sua habilidade. – Mas seja – cá me arranjarei como puder, e talvez gostasse mais… de ser mal sucedido.

SITTAH – Não tenhas tão pouca confiança em ti! Querendo tu, eu responderei por tudo. Os homens como tu querem sempre convencer-nos de que foi a espada, a espada somente que os fez tão grandes. Certamente que o leão se envergonha quando caça com a raposa – mas é da raposa que ele se envergonha e não da astúcia.

SALADIN – Como as mulheres querem rebaixar o homem até elas! Vamos, vai! – Julgo que sei a minha lição.

SITTAH – Como? é preciso que eu me vá ?

SALADIN – Tu não pensas em ficar?

SITTAH – Poderia não ficar… de maneira que fosse vista… Mas aqui neste quarto próximo…

SALADIN – Para te pores à escuta? Não quero nada disso, pois devo sair bem do negócio. – Vamos, vamos! ouço puxar o reposteiro; aí vem ele!… Não fiques aí. Eu serei vigilante. (Enquanto Sittah sai por uma porta, Nathan entra pela outra; Saladin senta-se.)

SALADIN – Aproxima-te judeu!… Mais… Aqui mesmo ao pé de mim!… Não tenhas medo.

NATHAN – O medo é para os teus inimigos.

SALADIN – Tu chamas-te Nathan?

ΝΑΤΗΑΝ – Sim.

SALADIN – Nathan o sábio?

NATHAN – Não.

SALADIN – Sim! se não te chamas assim, chama-te pelo menos o povo.

NATHAN – Pode ser o povo!

SALADIN – Tu não pensas contudo que eu considero a voz do povo como desprezível? Há muito que desejava conhecer o homem a quem ela chamou sábio.

NATHAN – E se fosse por troça que ela assim me chamasse? Se para o povo sábio não fosse mais do que esperto? E se esperto não fosse senão aquele que sabe velar pelos seus interesses?

SALADIN – São os seus verdadeiros interesses que queres dizer?

NATHAN – Então o mais interesseiro seria com certeza o mais esperto; então esperto e sábio seriam a mesma coisa.

SALADIN – Acabo de te ouvir provar o que queres contestar. Tu conheces bem esses verdadeiros interesses do homem, que o povo não conhece. Tens pelo menos procurado conhecê-los; meditaste-os: já só isso pode fazer um homem sábio.

NATHAN – Como cada um o crê ser.

SALADIN – Basta! é modéstia demais! porque desgosta não ouvir mais nada quando se esperava a razão. (Levanta-se…) Vamos ao caso! Mas sinceridade, judeu, sinceridade!

NATHAN – Sultão, servir-te-ei certamente de maneira a provar-te que sou digno das tuas relações.

SALADIN – Servir-me? como ?

NATHAN – Terás o que há de melhor antes de todos os outros; tê-lo-ás ao preço mais módico.

SALADIN – De que estás tu a falar? não será das tuas mercadorias? – Isso de barganhar é com minha irmã (isto é, para a curiosa!) – Não é ao comerciante que tenho a falar.

NATHAN – Quererás sem dúvida saber o que no meu caminho pude observar sobre os teus inimigos, se realmente tornam ao combate?… Para dizer francamente…

SALADIN – Também não é nada disso que eu quero tratar contigo. Sei sobre esse assunto tudo quanto preciso… Em poucas palavras…

NATHAN – Ordena, Sultão.

SALADIN – Quero saber a tua opinião sobre um assunto completamente diferente. Já que és tão sábio, dize-me então que crença, que lei te pareceu melhor.

NATHAN – Sultão, eu sou judeu.

SALADIN – E eu sou muçulmano. Entre nós está o cristão… Destas três religiões só uma pode ser a verdadeira… Um homem como tu não fica onde o acaso do nascimento o lançou, ou, quando fica é por exame, por princípios, por escolha do melhor. Pois bem faze-me ciente do teu exame. Deixa-me ouvir as tuas razões, pois não tive tempo de aprofundar as minhas. Faz-me compreender, – aqui entre nós, já se vê – a escolha que essas razões determinaram, para que eu possa também fazer a minha… Então? ficas aturdido? interrogas-me com o olhar ?… É possível que eu seja o primeiro sultão que tem tido um semelhante capricho, que no entanto não me parece absolutamente indigno dum sultão?… Não é assim?… Então, fala! fala!… Ou queres refletir um momento? Bem, eu o concedo… (Terá ela escutado? Eu vou espreitá-la, e saberei se comecei bem…) Pensa então! pensa com toda a prontidão! Eu não tardarei a voltar.

(Sai para o quarto próximo, por onde Sittah saiu…)

NATHAN () – Hum!… hum!… é estranho!… o que é que se passa?… que quererá o sultão?… Eu esperava que se tratasse de dinheiro, e ele quer a verdade. A verdade! e ele a quer… de contado, como se a verdade fosse uma moeda – Sim, se fosse por inteiro, como a moeda antiga que se pesava!… ainda vá! Mas a nova moeda, que não vale senão pelo cunho, que é atirada e contada no balcão… A verdade não pode ser isto! Pode-se meter a verdade na cabeça dum homem como dinheiro num saco? Quem é então aqui o judeu? eu ou ele?… Mas quê! exigirá ele na verdade a verdade?… Sem dúvida, sem dúvida que a suspeita de que ele se serve da verdade como duma armadilha, seria também baixa demais!… Baixa demais?… Há alguma coisa baixa demais para um grande?… Depois, entra-me em casa assim sem mais cerimônias!… Primeiro bate-se à porta, fala-se, espera-se, quando uma pessoa se aproxima como amiga… Tenho de me acautelar!… e como? como há de ser?… Mostrar-me como um verdadeiro judeu? isso não convém. Não me mostrar absolutamente nada judeu? seria ainda pior. Porque, se eu não fosse nada judeu, não me podia ele perguntar porque não sou muçulmano?… É isso! Eis o que me pode salvar. Nem só as crianças se divertem com historietas… Ele aí vem… Pois pode vir!

SALADIN – (A costa está deserta.) Não venho cedo demais? Já refletiste?… Vamos, fala! Nem uma alma sequer nos ouve.

NATHAN – Todo o mundo nos poderia ouvir.

SALADIN – Tão certo está Nathan das suas ideias? Ah! eis o que se chama um sábio! Nunca ocultar a verdade! jogar tudo por ela: corpo e vida, bens e sangue!

NATHAN – Sim, sim quando é preciso e há utilidade em o fazer.

SALADIN – Creio que posso doravante usar com todo o direito um dos meus títulos, o de “Reformador do mundo e da lei!”

NATHAN – Belo, um lindo título! No entanto, sultão, antes que eu me confesse, permites-me que te conte uma história?

SALADIN – Porque não? Sempre fui amigo das histórias quando são bem contadas.

NATHAN – Sim, bem contadas, mas não é esse o meu caso.

SALADIN – Ainda essa orgulhosa modéstia?… Vamos lá, conta, conta!

NATHAN – Lá nos tempos antigos vivia no Oriente um homem que tinha recebido da mão duma pessoa amada um anel de valor inestimável. A pedra era uma opala, onde brilhavam cem lindas cores, e tinha a virtude misteriosa de tornar agradáveis a Deus e aos homens, quem a usasse com esta firme convicção. Que admira pois que esse habitante do Oriente nunca mais a tirasse do dedo e que ele tomasse todas as disposições para que ela ficasse sempre na família? Eis o que prescreveu. Deixou o anel ao seu filho mais querido e dispôs que este o deixasse por sua vez ao filho predileto, e que, sem consideração pelo direito da primogenitura, o filho favorito se tornasse o chefe da família. – Entende-me, sultão.

SALADIN – Estou entendendo. Continua!

NATHAN – De filho para filho, veio enfim parar este anel ao pai de três filhos, que eram todos três igualmente bons, e ele não podia deixar de amar todos os três com igual ternura. Só de tempos em tempos – Segundo um ou outro se achava sozinho com ele e os outros dois não partilhavam das efusões do seu coração, – ora este, ora aquele, ora o terceiro, lhe parecia o mais digno do anel, ainda que ele tivesse a bem intencionada fraqueza de o prometer a cada um deles. Assim foi durante um tempo, enquanto assim pôde ser. – Mas a morte aproximava-se e o terno pai achava-se perplexo. Afligia-se de ter de enganar dois dos seus filhos, que tinham confiado na sua palavra. – Que fazer? – Mandou vir secretamente um artista à sua presença, a quem mandou fazer, pelo modelo do seu anel, dois outros, não poupando nem despesas nem fadigas para os fazer inteiramente iguais. O artista conseguiu-o. Quando ele lhe trouxe os anéis, nem o pai pôde distinguir qual deles era o anel modelo. Alegre e satisfeito, chamou os seus filhos, cada um em particular, e deu a cada um a sua benção e o seu anel – e morreu. – Ouves-me, sultão?

SALADIN (que se afasta, embaraçado) – Ouço, ouço! – Acaba lá o teu conto? – E então?

NATHAN – Eu já acabei, sultão; o que se segue, entende-se por si mesmo. – Logo que o pai morreu, apresenta-se cada um com o seu anel, e cada um quer ser o chefe da família. Examinam, disputam, pleiteiam. Em vão: o verdadeiro anel não era demonstrável… (depois duma pausa, durante a qual espera a resposta do sultão), era tão indemonstrável… como a verdadeira fé.

SALADIN – O quê? é essa a tua resposta à minha pergunta?

NATHAN – Pode servir-me de desculpa, por não saber distinguir os anéis, o fato de o pai os ter mandado fazer na intenção de que ninguém os pudesse distinguir.

SALADIN – Os anéis!… Não brinques comigo!… Eu pensava que as religiões de que te falei se distinguiam completamente umas das outras. Até no vestuário, até no comer e beber.

NATHAN – Mas nos seus fundamentos já não diferem… Não se fundam todas elas na história – escrita ou tradicional?… E a história tem outras razões para se admitir do que a crença e a fé?… Não é assim?… E qual é a fé e a crença que podem ser menos postas em dúvida? Não é a dos nossos pais? daqueles cujo sangue herdamos? daqueles que desde a nossa infância nos deram provas do seu amor? que nos enganaram apenas quando lhes pareceu proveitoso o enganar-nos?… Porque é que eu devo acreditar menos em meus pais do que tu nos teus? Ou pelo contrário, posso eu exigir de ti que acuses os teus de mentira, para não contradizer os meus? Ou ainda: não se dá o mesmo com os cristãos? não é assim?

SALADIN – Pelo Deus vivo! Este homem tem razão. Não tenho nada a dizer.

NATHAN – Voltemos aos nossos anéis. Como disse, os filhos foram à justiça, e cada um jurou perante o juiz que recebera o anel das mãos de seu pai – o que era verdade – depois de ter recebido por muito tempo a promessa de gozar de todos os privilégios do anel – o que não era menos verdadeiro. – O pai, afirmava cada um deles, não podia ter sido tão falso para eles, e para não lançar uma suspeita dessas sobre seu pai tão amado, não podiam deixar, por mais vontade que tivessem de pensar bem dos seus irmãos, de denunciar a burla, e por isso, se se descobrissem os impostores, tirariam imediatamente a sua vingança.

SALADIN – E então o juiz? Tenho curiosidade de saber o que é que farás dizer ao juiz. Continua!

NATHAN – O juiz disse. “Se não me mandais aqui imediatamente o vosso pai, despeço-vos do meu tribunal. Pensais que estou aqui para adivinhar enigmas? Ou esperais que o próprio anel se pronuncie?… Mas Olhai! Ouvi dizer que o anel verdadeiro possuía a virtude miraculosa de tornar o seu possuidor agradável a Deus e aos homens. Isso deve resolver a questão, porque os anéis falsos não podem fazer isso… Bem, qual de vós é o mais amado dos outros dois? Vamos, respondei! Calai-vos? Os vossos anéis não têm então senão uma influência interior, e não manifestam exteriormente o seu poder? Só cada um se ama a si próprio? Oh! seriam então todos os três enganadores enganados? Nenhum dos vossos três anéis é verdadeiro. O anel verdadeiro certamente se perdeu. Para esconder, para reparar a sua perda, vosso pai mandou fazer três anéis para substituir o verdadeiro.”

SALADIN – Excelente! excelente!

NATHAN – E assim continuou o juiz, se insistis na minha sentença em vez do meu conselho, retirai-vos!… meu conselho é porém este: deixai as coisas absolutamente como elas estão. Cada um de vós recebeu o anel do vosso pai: assim cada um crê que o seu anel é que é o verdadeiro… Pode ser que vosso pai não tenha querido perpetuar por mais tempo em sua casa a tirania dum anel!… E certamente que ele vos amava a todos três, e amava-vos igualmente, pois que não quis oprimir dois para favorecer um… Pois bem, que cada um dos seus zelosos filhos, livres de preconceitos, imite o seu amor! Que cada um de vós porfie em pôr em evidência a virtude de que goza a pedra do seu anel que ele contribua ainda para essa virtude com a doçura, a afabilidade de caráter, a beneficência, a íntima confiança em Deus, e quando essa virtude da pedra se manifestar nos netos dos vossos netos, então eu vos cito para virdes a este tribunal daqui a milhares de milhares de anos. Então um homem mais judicioso do que eu ocupará esta cadeira e pronunciará a sentença. Retirai-vos!” – Assim falou o judicioso juiz.

SALADIN – Deus! Deus!

NATHAN – Saladin, se tu pensas que esse homem mais judicioso, esse homem prometido és tu…

SALADIN (aproximando-se de Nathan e pagando-lhe na mão que conserva nas suas até ao fim da cena) – Eu? Eu, nada? Ó meu Deus!

NATHAN – Que tens tu, Sultão?

SALADIN – Nathan, querido Nathan, os mil milhares de anos do teu juiz não estão ainda cumpridos. – O seu tribunal não é o meu. – Vai-te! – Vai-te… Mas sê meu amigo.

NATHAN – E Saladin não tinha mais nada a dizer-me?

SALADIN – Mais nada.

NATHAN – Mais nada?

SALADIN – Absolutamente mais nada – e por que?

NATHAN – Desejaria ter ainda a ocasião de te fazer um pedido.

SALADIN – É preciso de ocasião para fazer um pedido?… Fala!

NATHAN – Eu venho duma longínqua viagem, que fiz para receber os meus créditos… Tenho dinheiro de contado quase em demasia… O tempo não está seguro, e não sei bem onde o poderia colocar… Pensei que, como uma guerra próxima sempre exige mais dinheiro, talvez tu me pudesses empregar um pouco.

SALADIN (olhando-o fixamente) – Nathan! Não quero perguntar-te se Al-Hafi esteve já em tua casa – não quero examinar se não é alguma suspeita que te leva a fazer essa oferta espontânea…

NATHAN – Uma suspeita?

SALADIN – Eu mereço-a… Perdoa-me!… para que o ocultar? Devo confessar-te que tinha tenção…

NATHAN – De me pedires a mesma coisa, não é assim?

SALADIN – Exatamente.

NATHAN – Eis-nos pois ambos tirados dos nossos apuros. Como não te posso mandar todo o meu dinheiro de contado, mando-te o jovem templário. Tu já o conheces… Tive de lhe pagar uma grande importância.

SALADIN – O templário? Tu queres então auxiliar com o teu dinheiro os meus mais perversos inimigos?

NATHAN – Eu não te falo senão dum, daquele a quem poupaste a vida.

SALADIN – Ah! sim, já me recorda!… Tinha esquecido esse mancebo… Conhece-o? Onde está ele?

NATHAN – Como! tu não sabes como a graça que lhe concedeste se derramou sobre mim? Ele salvou do fogo minha filha, com risco da própria vida!

SALADIN – Ele? Pois ele fez isso?… Ah! via-se logo… Meu irmão, com quem ele se parece tanto, faria o mesmo!… Então ele está aqui? Traze-mo. Falei tantas vezes à minha irmã desse irmão que ela não conheceu, que quero mostrar-lhe o seu retrato… Vai, traze-mo aqui!… Como duma boa ação, mesmo quando ela foi produzida apenas pela paixão, podem decorrer outras boas ações. Vai, traze-mo aqui!

NATHAN (largando a mão de Saladin) – É num instante! E quanto ao resto, fica combinado? (Sai).

SALADIN – Ah! porque não deixei eu escutar minha irmã!… Vou procurá-la! vou procurá-la!… Mas como poderei eu contar-lhe tudo isto?